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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O Bicho Papão é Destro?


Anders Behring Breivik - Getty Images

Semana passada Anders Behring Breivik, réu confesso dos atentados ocorridos em 22 de julho deste ano na Noruega, onde ele assassinou 77 pessoas, concedeu uma polêmica entrevista de dentro da prisão ao Jornal VG, de OSLO, onde afirmou que no dia dos atentados, o carro-bomba que preparou tinha originalmente a intenção de derrubar o edifício inteiro da sede do governo da Noruega para matar do primeiro-ministro do país, Jens Stoltenberg, além da ex-premiê Gro Harlem Brundtland, o titular das Relações Exteriores, Jonas Gahr Store, e o presidente da juventude social-democrata (AUF) Eskil Pedersen, aos quais chamou de "traidores de classe A", mas a explosão causada por ele, que matou oito pessoas, não conseguiu atingir o objetivo. Na mesma entrevista, Breivik afirmou que foi só após fracassar nessa “missão” que decidiu ir à ilha de Utoya, onde matou a tiros 69 jovens que estavam acampados em um evento da juventude social-democrata.

O jovem bem sucedido nos negócios, que outrora fora adjetivado positivamente por muitas pessoas, hoje recebe um tratamento oposto, sendo considerado um monstro tenebroso por boa parte do mundo. Digo “boa parte” porque mesmo sendo um assassino brutal, Breivik possui admiradores.

As declarações dele ao jornal surpreendem pelo desdém com que trata o fato de ter executado friamente quase 80 pessoas em um único dia, colocando o massacre dos estudantes como uma espécie de “prêmio de consolação” por não ter atingido o objetivo principal. E tudo indica, a julgar pelos detalhes que envolvem o caso, que mesmo que tenha sido uma espécie de “plano B”, o assassinato dos jovens foi muito bem arquitetado e calculado, em uma notável lógica perversa de obtenção de sucesso a qualquer custo.

Essa postura fria e ausente de empatia é geralmente vista em pessoas com distúrbios de personalidade graves, como os sociopatas, os maníacos e os assassinos em série, mas, a contragosto do senso comum e da imprensa, seria realmente coerente afirmar que esse homem é um louco? A pergunta parece ridícula em um primeiro momento, mas se levarmos em conta que a menos de um semestre Breivik era um cidadão exemplar em todos os contextos sociais da sua comunidade, sendo um jovem bem apessoado de 32 anos muito bem sucedido nos negócios, cristão, com uma rotina saudável de exercícios, atuante no cenário político, formador de opinião e bem humorado na maior parte do tempo, será que o argumento de que ele é insano se sustenta?

A resposta é difícil de ser definida ao passo que entende-se por “louco” uma pessoa que vive em um mundo diferenciado dos demais seres humanos. Com conceitos distorcidos e deformados em suas impressões de mundo, e que age segundo suas próprias regras, sejam elas ordenadas conscientemente por si mesmo ou por alguma entidade externa fruto de seu delírio. E essa descrição não se encaixa em Anders Breivik, que tem uma vida correta segundo os conceitos de sua comunidade, mas sem ser correta demais como esperam alguns fãs do assassino que o querem ver como uma pessoa perfeita. 

Ele era uma pessoa normal até um dia antes do atentado, e agora, foi promovido a lunático após um fato absolutamente isolado de sua vida. E tanto antes quanto depois de seu pretenso “surto psicótico” ele continua apresentando uma leitura fria, calculista e cruel dos acontecimentos, mas todas inegavelmente reais.

Os motivos que ele apresenta para justificar sua atitude, apesar de pesadamente carregados de passionalidade e preconceitos, existem realmente. Não são delírios de uma mente perturbada mas uma constatação de fatos reais seguida de um julgamento pessoal.

Não, Breivik não é louco. 

É um fanático, cruel e perverso sim, mas louco ele não é. Ele sabia o que estava fazendo, e continua consciente do que fez. E a frieza em seu depoimento apenas demonstra a certeza que ele tem sobre suas convicções ideológicas, onde ele se isenta de culpa.

Chamá-lo de louco é simplificar perigosamente o que ele representa. É afastar a possibilidade dele não ser o único militante de suas idéias racistas que considere o homicídio em massa uma opção para atingir seus fins.

Notoriamente extremista em suas crenças, esse norueguês carrega consigo além de adjetivos figurados a respeito do desrespeito pela vida dos seus opositores, a pecha de ser um militante da direita conservadora européia, sendo popularmente nomeado como “ultradireitista” ou “de extrema direita” pelos jornais. O que serve tanto para buscar uma maior justificativa para sua suposta loucura, quanto para tentar agredir os movimentos legítimos da direita na Europa, que encontram-se em uma fase de popularidade bastante crescente.

É preciso fazer uma leitura critica dos fatos para não se entrar em contradição, uma vez que a maior parte dos argumentos levantados pelo senso comum e pela imprensa mundial não são capazes de se sustentar em uma avaliação pontual.

Breivik é inegavelmente um assassino frio com motivação racista de altíssima periculosidade, e as razões dele para os crimes que cometeu são realmente de origem ideológica. Mas, ele não deixa de ser considerado um membro da elite européia, e apesar das ideologias dele serem condizentes com as propostas dos partidos de direita, ele não é nada além de um cidadão comum na esfera partidária.

A busca por encontrar uma razão demoníaca para as atitudes dele, culpando algo pretensamente maior do que a simples vontade, de forma quase metafísica, não corresponde com a realidade dos fatos. Tratando-se claramente de um processo de desmoralização absolutamente inconseqüente da ideologia conservadora, ao tempo que o absolve por seus crimes por ser ele um homem na verdade doente, que só fez o que fez devido à combinação explosiva entre a sua patologia mental e a ideologia maléfica defendida pelos conservadores.

Nem Breivik é doente mental, e nem o conservadorismo e a direita são peçonhentos.

E isso precisa ser trazido ao debate quando se fala nesse caso, onde um homem, que pode ser parte de um grupo, tomou uma atitude absurdamente violenta para declarar sua indignação em relação sua visão do cenário político-social, e a preocupação não deve ficar concentrada em estereótipos pejorativos e interesses escusos de manipulação da opinião pública, uma vez que notadamente essa postura ridícula e sem base pode mascarar o verdadeiro mal por traz do acontecido e gerar ainda mais violência nos dias vindouros.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Seção Personalidades Estranhas - Bóris Iéltsin

Que Bóris Iéltsin foi um político russo que inseriu o capitalismo na Rússia e perdeu alguns dedos brincando com granadas na juventude, todo mundo sabe. Que o cara estava envolvido em escândalos e em altos casos de corrupção, todo mundo sabe. Que ele vivia bêbado e aprontando mil e uma peripécias pelo mundo todo mundo também sabe. E é por isso que nosso querido amigo de copo, amado por muitos levantadores de copos do planeta inteiro, é nossa personalidade estranha do momento.

Bóris Iéltsin

Não quero entrar no mérito político de tão mal falado homem. Não estou aqui pra julgar nem dar minha opinião sobre seus atos de governo ou suas escolhas políticas. Mas quero sim prestar uma homenagem ao pai da bebedeira russa, cuja personalidade, se fosse privada de nosso mundo, não nos permitiria dar tantas gargalhadas e ficar tão escandalizados com tantos vídeos bizarros vindo daquele país frio onde só tem louco e bebum.

Vodka russa

A bebida favorita de Bóris era a vodka, e sua preferida era a Stolichnaya, mas também gostava de tomar outras 42 marcas fabricadas na Rússia, gosto esse que permanecerá eternamente associado á sua imagem. Durante seu governo, que trouxe a Rússia ao mundo capitalista (em depreciação do socialismo), Iéltsin batalhou para que a indústria da vodka no país fosse liberta das restrições da distribuição mantidas pelo Estado, fazendo com que um número de indústrias da bebida razoavelmente grande ganhasse espaço no país. Alguns dos efeitos colaterais desse liberê geral foram que muita gente morreu por conta de vodkas de péssima qualidade e os problemas de alcoolismo que cresciam de forma assustadora, ameaçando até mesmo a economia do país. Com tudo isso, a regulamentação da bebida voltou, o que não impediu o mercado de vodka barata de aumentar. O país decretou estado de emergência em várias cidades devido á falta de capacidade dos hospitais de lidarem com a grande quantidade de indivíduos que consumiram vodka contaminada.

Há uma estimativa de que cerca de 42 mil russos morrem POR ANO em consequência da embriaguez de vodka barata (!!!! - isso corresponde à 116 mortes diárias, 5 mortes a cada hora), o que cria uma crescente preocupação no governo, afinal, com isso há uma estimativa de que até 2050 o país perca cerca de um terço de toda sua população (visto os problemas relacionados à natividade que colabora pra isso).

Mas voltando ao homem...

Iéltsin nunca escondeu seu problema crônico relacionado ao alcoolismo. Pelo contrário, era comum vê-lo aprontando das suas, seja dançando, seja caindo, seja bebendo. Em sua biografia também não esconde o jogo, diz que muitas vezes agiu sob influência do álcool no seu governo.

"Percebi que o álcool era a única maneira de aliviar o stress."

Outra cena muito comum era vê-lo cochilando em reuniões.

"Alguns dizem que a vodka atualmente é barata demais e que devíamos aumentar os preços. Mas eu ainda não tive coragem para isso. As pessoas têm sentimentos especiais por esta bebida. Elas não ligam de tomar um ou dois tragos depois do trabalho. Então não tenho pressa em aumentar os preços.”

Alguns fatos históricos

- 1989: teve que explicar ao Soviete Supremo o motivo de ter entrado numa delegacia em Moscou todo molhado e só de cueca;
- 1992: tocou colher (um instrumento musical russo) na cabeça de Askar Askayev, presidente da Quirguízia;
- 1994: em uma viagem de barco descendo o rio Volga, pediu a seus guarda-costas que atirassem seu porta voz na água. No mesmo ano, durante um desfile militar, pegou a batuta do líder da banda e tentou reger a orquestra. Depois, no mesmo dia, numa recepção, pegou um microfone e começou a cantar;
- Ainda em 1994, ao ser recebido pelo primeiro-ministro da Irlanda no aeroporto de Shannon, se recusou a sair do avião (provavelmente bêbado);
- 1995: flagrado beliscando a bunda de sua secretária numa reunião com correspondentes estrangeiros;
- 1996: dançou rock num comício, que rendeu muitas fotos engraçadas que abrilhantam o post;
- 1997: declarou, na Suécia, que iria reduzir o arsenal nuclear russo e buscar uma proibição mundial. Seu porta-voz depois disse pra não serem levadas a sério suas declarações;
- Existe um campeonato na Rússia chamado "Boris Yeltsin Cup". Não se trata de campeonato de vodka, mas sim de um campeonato de tênis, por incrível que possa parecer.

Alguns fatos também geraram polêmicas mas se desconfia que não passam de boatos. Por exemplo, Bill Clinton em seu livro de memórias, afirma que certa vez Iéltsin foi encontrado perto da Casa Branca de cueca, na madrugada, bêbado e procurando uma pizza, durante uma visita à Washington.






Morte

Bóris Iéltsin faleceu aos 76 anos. Desta vez, quando caiu, caiu pra não mais levantar.

*Agradeço meu colega Paulo por ter comentado sobre esta personalidade estranha e ter me dado à idéia de escrever sobre ele.