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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Sobre Meninas e Porcos



A turma do politicamente correto não descansa mesmo.


As “campanhas de Facebook” são contagiosas: se espalham tão rápido quanto uma epidemia de gripe e quando você vê a coisa tomou conta de quase todos os perfis e todos estão correndo atrás de um sujeito estranho, com tochas e garfos de feno nas mãos, gritando “Queimem o monstro! Queimem o monstro! 


Isso até surgir uma nova causa, na semana seguinte, onde as mesmas pessoas abandonarão o entusiasmo em lutar pelo direito dos animais, ou para tentar impedir o Bolsonaro de falar, para seguir a boiada ideológica em outro rumo.

Bem, sem aprofundar muito o tema, quero apenas tecer alguns comentários a respeito da "causa da semana", que tem inundado minha timeline desde os últimos dias de 2011 até agora, onde os revolucionários ativistas facebookianos estão travando uma cruzada épica, manifesta através de publicações compostas por montagens fotográficas e frases de efeito que buscam "moralizar" as mulheres, falando em "se dar ao respeito" e “se comportar como uma princesa” coisa e tal, abertamente ofendendo as mulheres que não querem ser “certinhas”.

"Baile Funk" - Foto By Camera Viva


Pois bem, como de costume, eu tenho algumas colocações a fazer para contribuir com esse debate, e gostaria muito que vocês comentassem o que acham do que vou dizer, seja nos comentários da postagem ou por email.

Vamos lá:

Em primeiro lugar gostaria de mais uma vez deixar bem claro que acredito piamente que os gostos de cada um pelo que quer que seja não refletem o caráter. Não é porque você gosta mais disso que daquilo, que você é uma pessoa melhor do que seu amiguinho, que prefere aquilo do que isso. Na verdade, pouco importa o que você gosta ou deixa de gostar. Isso só diz respeito a você. E se você for uma pessoa de caráter, com um bom coração, você pode gostar do que quiser que nada vai mudar o fato de que você é uma pessoa de valor. Nem a música que você ouve, nem comida que prefere, nem literatura que le ou deixa de ler, nem a maneira como você usa seu tempo livre, nada disso pode traduzir quem você é, ou, que tipo de pessoa você é.


Em segundo lugar, eu acredito que a forma como cada um se diverte e cuida da sua vida não diz respeito a terceiros. Se o que a pessoa faz não prejudica seus semelhantes e não é ilegal, ninguém tem nada com isso. E juntamente com a questão anterior, nesse caso, novamente a sua opinião sobre o que o outro faz, não tem nenhum valor, já que o gosto do outro não serve para avaliar o caráter dele, e, a forma como ele gosta de se divertir não é da sua conta. Até porque, não existe um único ser humano na face da terra que seja portador da verdade absoluta sobre qual o modo certo de viver ou do que todos deveriam gostar.


A diferença entre as pessoas é o que há de mais fascinante no nosso mundo, e saber encontrar a beleza disso faz você abrir os olhos para uma outra realidade, rica em experiências magníficas, extremamente positivas. Onde você pode inclusive encontrar em outras pessoas, defeitos e qualidades que ajudem você a melhorar a si mesmo como pessoa.


E em terceiro e ultimo lugar, eu gostaria de dar um coice bem dado também nos extremistinhas de final de semana, que chegam espumar de raiva afirmando que “é machismo isso de transformar a mulher promiscua em vagabunda e o homem promiscuo em garanhão”. Concordo, é machismo sim dizer esse tipo de asneira sobre um comportamento tão doentio, mas a sugestão de solução defendida pelos extremistas de que a mulher deveria ter o "direito" de poder ser promiscua e ser chamada de "garanhona" é ridiculamente mais machista do que as coisas já são!


Vocês querem o direito de serem tão estúpidas e imundas quanto os homens, que coisificam e maltratam as mulheres, sem serem ofendidas? Se deram conta de que a reivindicação que estão fazendo é essa?


Tem algo errado aqui, vocês não acham?


Por que valorizar tanto esse comportamento tão prejudicial a todos? A promiscuidade e a vulgaridade não são adjetivos! Não são qualidades! São defeitos! Patologias psicológicas de pessoas problemáticas, que sofrem e se auto depreciam! Usam-se mutuamente como brinquedos sexuais, onde descartam o lixo que precisam se livrar dentro do corpo umas das outras! É isso que querem? Poder sentir publicamente orgulho de serem usadas como vasos sanitários?


Vocês deviam lutar para demonizar homens cafagestes, promíscuos e infiéis, isso sim! Transformar o “garanhão” em “vagabundo”! E não o contrário!


Deveriam exigir o direito, esse sim, de pode ter orgulho em ser uma pessoa fiel, educada, respeitadora e sem vícios. E exigir que para um homem possa merecer seu carinho e amor, que ele seja limpo, honesto, fiel, gentil e educado.

Já vi muitas mulheres reclamando de que homens são todos iguais, que não prestam e coisa e tal. Mas qual é o critério de vocês para escolherem com quem vão se relacionar? Vocês tem um critério?

Há homens que são como vocês gostariam por aí aos montes, na mesma proporção que há mulheres que são como muitos homens gostariam. O problema é essa estúpida visão limitada das coisas, onde as pessoas só buscam saciar suas necessidades fisiológicas umas nas outras, e muitas vezes magoam e deixam de lado pessoas que poderiam tratá-las como gostariam.

As pessoas que agem pelo bem hoje em dia, que respeitam e tem valores nobres, chegam a sentir vergonha se serem assim, muitas vezes fingindo uma maldade que não tem, para não serem segregadas, isoladas e taxadas pejorativamente de "certinhas".


Ser "certinho" é errado? É a ditadura dos "erradinhos" então?


Vamos todos nos comportar como porcos no cio! Porque essa é a nova ordem! “Comer, transar e defecar”, essa é a nova trindade a ser seguida?


Trindade essa que, aliás, de "nova" não tem nada. Porque não tem nada de "moderno" em ser promíscuo e sem-vergonha. Isso sempre existiu. É a forma mais primitiva de comportamento que se conhece. Não tem nada de novo nisso não. É um comportamento retrógrado e reacionário que atrasa a evolução das relações e afasta os praticantes da maturidade.


Porque homens que agem certo não são vistos como “os caras”?


Por que todos precisam bajular os vagabundos de plantão, ao ponto de até as mulheres exigirem o direto de poderem ser iguais a eles sem sentirem vergonha?


E nem vou falar nada sobre as meninas deixarem os caras legais na fronteira da amizade e preferirem quase sempre se entregarem para ratos de esgoto... isso seria uma outra discussão bem longa. Mas é uma realidade também.


Não, não. To fora dessa. E acredito que muita gente concorda comigo.


Tem algo muito errado nesse debate. A começar pelas pessoas querendo mandar uns no corpo dos outros. Se não é com você, não é da sua conta! Vai cuidar da vida e para de andar por aí ofendendo gente que você nem sabe que ta ofendendo. Você não vai salvar o mundo apontando o dedo na cara dos outros e gritando “vagabunda”, “bicha”, “burro”, “pé rapado”... não vai. Não vai fazer do mundo um lugar melhor sendo um completo imbecil.


Você só vai machucar pessoas. Nada vai mudar nelas nem em lugar nenhum. Você só está prejudicando a si mesmo, vestindo uma carapaça de preconceitos que só trarão antipatia pela sua pessoa, e, lhe privarão de conhecer seres semelhantes a você, mas diferentes, que você poderia ajudar, ou, que poderiam ajudar você em algum momento difícil. Está perdendo de conhecer mais sobre o mundo e sobre si mesmo.


Não que devamos aceitar tudo, deixar cada um fazer o que quiser sem nada dizer. Não é isso. Muitas vezes é necessário alertar as pessoas sobre o que estão fazendo, principalmente quando sua saúde ou segurança está sendo posta em risco, mas ter uma postura grosseira, ofensiva e debochada não vai ajudar ninguém. E não vai tornar você um herói da moral dos bons costumes, principalmente se fizer isso pela internet.

Seja você quem for, não tem o direito de julgar ninguém e nem de maltratar e ofender quem quer que seja.

Para aquelas que são as vitimas mais atingidas dessas posturas, as mulheres, se são oprimidas de ambos os lados, com homens tratando-as sem respeito por generalizarem o comportamento de algumas meninas mal-criadas, e, por sua própria categoria que diminui as mulheres que optam por não serem vulgares, chamando-as de santinhas e coisas do gênero, somente posso lamentar. Não só pela dificuldade que é ser uma mulher em tempos como os nossos, onde há a ilusão de que são livres e respeitadas, mas lamento também profundamente por aquelas que, ao invés de exigirem que os homens sejam mais dignos e respeitáveis, que as valorizem como pessoas e se comportem de forma civilizada, não o fazem, preferindo exigir para si o direito de agir como os piores dos piores dos piores homens que existem... e acham que estão fazendo uma grande coisa.


Se você quer transar como um animal no cio, se entorpecer de álcool e cocaína sem valorizar ninguém, sem respeitar ninguém, mostrando o rabo pra todo mundo ver... você até pode fazer. Há conseqüências para isso e todos sabem. Mas não me venha exigir o “direito” de ser respeitado (a) por isso, seja homem ou mulher. Ser assim não é algo que te faça melhor do que ninguém. São seus gostos apenas, e GOSTOS NÃO DEFINEM CARÁTER! Ser certinho ou erradinho não tem a menor importância se você chuta vira latas na rua, é grosseiro com o garçom ou trai sua esposa. Essas atitudes que vão dizer quem você é, e não a forma como você gosta de se divertir.

Agir de forma polida, ser fiel e digno merece respeito hoje em dia, por serem qualidades raras. Mas também por ser agradável e por colaborar para o bem comum. Mas o contrário não! Ser grosseiro, infiel ou safado prejudica muita gente, e atenta contra o bem estar de outras pessoas e isso não é algo que deva ser respeitado.

Que isso minha gente? Querer ser podre, e não apenas isso, querer ser podre e ainda sentir orgulho disso? Convenhamos né?


Já existem por aí muitas mulheres que agem como homens podres e vice-versa, que ficam dando risada desse tipo de papo. E pra essas pobres criaturas a nossa opinião sobre esse debate não significa nada, já que para eles, sendo homem ou mulher, o importante é o prazer individual. Não precisam que ninguém lute pelos “direitos” deles. Já concederam a si mesmos todos os direitos que precisam, e não há necessidade de ativistas para sua causa. Até porque essa “causa” é tão individualista que não se pode lutar conjuntamente por ela. Cada um só quer saber do seu, e só faz barulho na internet pra defender os seus interesses pessoais. Para tentar garantir que não vai ficar sem

Não há nada de “bem comum” em se defender o direito de se orgulhar das misérias humanas. E nem se divertir às custas da degradação dos seu semelhante.

Como não há nada de proveitoso e nem de nobre em ofender pessoas que ajam diferentemente de você a respeito disso ou daquilo.

Somos como somos, todos podem mudar, uns pra pior e outros pra melhor. Mas independentemente do que escolhemos fazer, todos merecem respeito.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O Bicho Papão é Destro?


Anders Behring Breivik - Getty Images

Semana passada Anders Behring Breivik, réu confesso dos atentados ocorridos em 22 de julho deste ano na Noruega, onde ele assassinou 77 pessoas, concedeu uma polêmica entrevista de dentro da prisão ao Jornal VG, de OSLO, onde afirmou que no dia dos atentados, o carro-bomba que preparou tinha originalmente a intenção de derrubar o edifício inteiro da sede do governo da Noruega para matar do primeiro-ministro do país, Jens Stoltenberg, além da ex-premiê Gro Harlem Brundtland, o titular das Relações Exteriores, Jonas Gahr Store, e o presidente da juventude social-democrata (AUF) Eskil Pedersen, aos quais chamou de "traidores de classe A", mas a explosão causada por ele, que matou oito pessoas, não conseguiu atingir o objetivo. Na mesma entrevista, Breivik afirmou que foi só após fracassar nessa “missão” que decidiu ir à ilha de Utoya, onde matou a tiros 69 jovens que estavam acampados em um evento da juventude social-democrata.

O jovem bem sucedido nos negócios, que outrora fora adjetivado positivamente por muitas pessoas, hoje recebe um tratamento oposto, sendo considerado um monstro tenebroso por boa parte do mundo. Digo “boa parte” porque mesmo sendo um assassino brutal, Breivik possui admiradores.

As declarações dele ao jornal surpreendem pelo desdém com que trata o fato de ter executado friamente quase 80 pessoas em um único dia, colocando o massacre dos estudantes como uma espécie de “prêmio de consolação” por não ter atingido o objetivo principal. E tudo indica, a julgar pelos detalhes que envolvem o caso, que mesmo que tenha sido uma espécie de “plano B”, o assassinato dos jovens foi muito bem arquitetado e calculado, em uma notável lógica perversa de obtenção de sucesso a qualquer custo.

Essa postura fria e ausente de empatia é geralmente vista em pessoas com distúrbios de personalidade graves, como os sociopatas, os maníacos e os assassinos em série, mas, a contragosto do senso comum e da imprensa, seria realmente coerente afirmar que esse homem é um louco? A pergunta parece ridícula em um primeiro momento, mas se levarmos em conta que a menos de um semestre Breivik era um cidadão exemplar em todos os contextos sociais da sua comunidade, sendo um jovem bem apessoado de 32 anos muito bem sucedido nos negócios, cristão, com uma rotina saudável de exercícios, atuante no cenário político, formador de opinião e bem humorado na maior parte do tempo, será que o argumento de que ele é insano se sustenta?

A resposta é difícil de ser definida ao passo que entende-se por “louco” uma pessoa que vive em um mundo diferenciado dos demais seres humanos. Com conceitos distorcidos e deformados em suas impressões de mundo, e que age segundo suas próprias regras, sejam elas ordenadas conscientemente por si mesmo ou por alguma entidade externa fruto de seu delírio. E essa descrição não se encaixa em Anders Breivik, que tem uma vida correta segundo os conceitos de sua comunidade, mas sem ser correta demais como esperam alguns fãs do assassino que o querem ver como uma pessoa perfeita. 

Ele era uma pessoa normal até um dia antes do atentado, e agora, foi promovido a lunático após um fato absolutamente isolado de sua vida. E tanto antes quanto depois de seu pretenso “surto psicótico” ele continua apresentando uma leitura fria, calculista e cruel dos acontecimentos, mas todas inegavelmente reais.

Os motivos que ele apresenta para justificar sua atitude, apesar de pesadamente carregados de passionalidade e preconceitos, existem realmente. Não são delírios de uma mente perturbada mas uma constatação de fatos reais seguida de um julgamento pessoal.

Não, Breivik não é louco. 

É um fanático, cruel e perverso sim, mas louco ele não é. Ele sabia o que estava fazendo, e continua consciente do que fez. E a frieza em seu depoimento apenas demonstra a certeza que ele tem sobre suas convicções ideológicas, onde ele se isenta de culpa.

Chamá-lo de louco é simplificar perigosamente o que ele representa. É afastar a possibilidade dele não ser o único militante de suas idéias racistas que considere o homicídio em massa uma opção para atingir seus fins.

Notoriamente extremista em suas crenças, esse norueguês carrega consigo além de adjetivos figurados a respeito do desrespeito pela vida dos seus opositores, a pecha de ser um militante da direita conservadora européia, sendo popularmente nomeado como “ultradireitista” ou “de extrema direita” pelos jornais. O que serve tanto para buscar uma maior justificativa para sua suposta loucura, quanto para tentar agredir os movimentos legítimos da direita na Europa, que encontram-se em uma fase de popularidade bastante crescente.

É preciso fazer uma leitura critica dos fatos para não se entrar em contradição, uma vez que a maior parte dos argumentos levantados pelo senso comum e pela imprensa mundial não são capazes de se sustentar em uma avaliação pontual.

Breivik é inegavelmente um assassino frio com motivação racista de altíssima periculosidade, e as razões dele para os crimes que cometeu são realmente de origem ideológica. Mas, ele não deixa de ser considerado um membro da elite européia, e apesar das ideologias dele serem condizentes com as propostas dos partidos de direita, ele não é nada além de um cidadão comum na esfera partidária.

A busca por encontrar uma razão demoníaca para as atitudes dele, culpando algo pretensamente maior do que a simples vontade, de forma quase metafísica, não corresponde com a realidade dos fatos. Tratando-se claramente de um processo de desmoralização absolutamente inconseqüente da ideologia conservadora, ao tempo que o absolve por seus crimes por ser ele um homem na verdade doente, que só fez o que fez devido à combinação explosiva entre a sua patologia mental e a ideologia maléfica defendida pelos conservadores.

Nem Breivik é doente mental, e nem o conservadorismo e a direita são peçonhentos.

E isso precisa ser trazido ao debate quando se fala nesse caso, onde um homem, que pode ser parte de um grupo, tomou uma atitude absurdamente violenta para declarar sua indignação em relação sua visão do cenário político-social, e a preocupação não deve ficar concentrada em estereótipos pejorativos e interesses escusos de manipulação da opinião pública, uma vez que notadamente essa postura ridícula e sem base pode mascarar o verdadeiro mal por traz do acontecido e gerar ainda mais violência nos dias vindouros.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Entre o Óleo de Peroba e o Kevlar¹


O presidente nacional do PMDB, Senador Valdir Raupp (RO), afirmou semana passada (no dia 22 de setembro) durante o lançamento da pré-candidatura do Deputado Federal, Marllos Sampaio à prefeitura de Teresina nas eleições de 2012, que a corrupção é "inerente ao poder e a democracia".

Nas palavras dele: "A corrupção, infelizmente, envolve ministros no Japão, nos Estados Unidos, na Inglaterra, Portugal e Espanha, e no Brasil como se vive uma democracia não seria diferente. Isso acontece". (…) "Quero dizer que a corrupção é inerente ao poder e a democracia, porque existem países em que a corrupção não aparece por que não é apurada. E aqui, se apura com rigor."

O homem que no mesmo discurso também defendeu os ex-ministros do Turismo Pedro Novais e da Agricultura Wagner Rossi, que foram exonerados do governo Dilma após denúncias de corrupção, dizendo que não há provas contra eles, pode ter deixado escapar algo que muitas pessoas gostariam de dizer a plenos pulmões mas não o fazem por medo dos inquisidores que estão sempre atentos prontos a incinerar os hereges que ousem questionar a puríssima e intocável democracia. Seria o Presidente nacional do PMDB um anti-democrata? É impossível afirmar. Ao mesmo tempo que também é impossível se utilizar da sua postura como embasamento para qualquer idéia, visto que no mesmo discurso ele não apenas recua no ataque que fez, como na sequencia ainda utiliza o espaço para sair em defesa de alguns representantes políticos de caráter duvidoso.

Bastante curioso o argumento que utiliza para se defender de algum rótulo que possa vir a receber por sua crítica, que por coincidência ou não, é um argumento bastante comum utilizado pelos inquisidores: o de que nos governos não democráticos a corrupção somente não é visível por não haver investigação do estado para si mesmo. Argumento esse que se torna uma faca de dois gumes, em um primeiro momento servindo ao seu propósito de ataque, dizendo que que os governos autoritários são tão corruptos quanto os democráticos (sem dados para serem citados) e rebatendo assim a argumentação contra a democracia nesse aspecto, e em um segundo momento ferindo o próprio atacante que acaba por admitir que a corrupção nos sistemas democráticos é algo que exige um esforço específico da maquina publica para ser contido, como um mal natural no próprio processo, apesar da sua “legitimidade” e da transparência das suas prestações de conta.

Não obstante, é preciso salientar com veemência que é um tanto constrangedor ver o líder de um dos mais importantes partidos políticos do espectro nacional afirmar que a corrupção é algo inerente ao poder. Bem, sabemos que os homens não são anjos, e que se o fossem não precisariam ser governados. Mas há uma sutil diferença entre reconhecer que as as deturpações da ética prejudicam o trabalho político, e afirmar, com um sorriso que pode ser interpretado como como deboche no rosto, que as coisas são sujas mesmo e são assim porque é natural que sejam.

Esse tipo de postura, que combina perfeitamente com as posturas de diversos outros membros do poder público, poderia na verdade ser um bom argumento para a campanha do desarmamento. Para evitar que a televisão se torne um show dos horrores. Sim, pois qualquer cidadão que ao testemunhar algo assim e estando no momento a portar uma arma de fogo, teria quase que uma obrigação cívica de disparar os argumentos mais convincentes possíveis na direção da cabeça de certos parlamentares. E isso na TV, dependendo do horário, seria uma imagem imprópria para crianças e pessoas sensíveis.


1 - “Kevlar” é uma marca registada da DuPont. Trata-se de uma fibra sintética feita de polímero resistente ao calor e sete vezes mais resistente que o aço, usado na fabricação de coletes à prova de bala.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Dou Uns Tiro Mas Não Atiro


A alguns dias começaram a circular pela internet alguns vídeos bem simples, onde artistas muito populares ligados à Rede Globo se manifestam no sentido de convencer as pessoas à entregarem suas armas à campanha do desarmamento. O primeiro vídeo dessa nova investida desarmamentista começou bem, estrelando com o loiro de olhos azuis Fábio Assunção, que deu um tempo na carreira para prestar um sincero depoimento pedindo para que as pessoas entreguem suas armas pelo bem das crianças(!). 

Todo ano a política nacional de segurança pública apresenta a mesma brilhante solução para todos os problemas do universo: o desarmamento.

Quando o desarmamento foi importado para o Brasil pelas mãos do então Presidente da República, senhor Fernando Henrique Cardoso, foi apresentado à população como a cura para todos os males. Resolveria todos os problemas de criminalidade, acabaria com os homicídios, e o Brasil erradicaria todos os absurdos causados por armas de fogo de uma só vez. 

Não é minha intenção entrar aqui no mérito sobre a eficácia ou inutilidade do desarmamento, mas apenas opinar sobre o trabalho assustadoramente anti-ético feito pelos seus defensores no Brasil. 

Em 1997, o porte ilegal de arma, até então uma simples contravenção, foi transformado em crime. As exigências burocráticas para compra e porte de armas de fogo foram severamente ampliadas de forma a dificultar ao extremo a sua aquisição, e, no mesmo ano foi criado o SINARM (Sistema Nacional de Armas), que prometia centralizar os dados de todos os registro de armas do país.

Os anos passaram, e absolutamente nenhum efeito foi sentido nos índices do crime no Brasil. Aliás, muito pelo contrário, a criminalidade cresceu absurda e assustadoramente ao ponto que nosso país atingiu a inacreditável marca de 50 mil homicídios por ano.

Em 2003, se criou a lei 10.826. O famigerado “Estatuto do Desarmamento”. Aprovado, diga-se de passagem, em época de “mensalão”, sob um falso clamor popular (como ficaria provado em 2005 quando o povo esmagou as más intenções dos líderes votando “não” no referendo mais arbitrário e tendencioso da história), o  porte de armas foi terminantemente proibido e a simples compra de um revólver calibre .22 se tornou um extraordinário exercício de paciência para vencer a burocracia imposta. Para a população mais pobre o direito acabou, uma vez que os custos e as exigências são agora uma barreira intransponível para quase a totalidade dos Brasileiros.

No referendo de 2005, um debate unilateral tomou conta do país, e ficou claro como agiriam os desarmamentistas para conseguirem seu intento, mudando seus argumentos como quem troca de roupa a cada vez que fossem derrotados. Culminando no discurso do então Ministro da Justiça, Thomas Bastos, onde admitia que o desarmamento não tiraria as armas dos bandidos, fato que a oposição se apoderou e utiliza até os dias atuais como um dos seus principais argumentos.

Mesmo com o resultado inequívoco do referendo, onde o povo deixou claro que quer manter imaculado o seu direito à auto-proteção, o governo não desistiu de seu intento de impossibilitar que o cidadão tenha uma arma para sua defesa. Vieram então as campanhas “voluntárias” de entrega de armas. Criou-se nas mídias outro discurso fraudulento e malicioso: A entrega de armas impossibilitaria que caíssem nas mãos dos bandidos.

A contra argumentação para esse absurdo foi rápida e certeira: se o governo diz que o cidadão não deve ter uma arma para que a mesma não seja roubada, ele assina sua incapacidade em fazer cumprir a lei, em proteger o cidadão. Além disso, qual garantia o Estado dá que os criminosos não continuariam a se abastecer no contrabando? Nenhuma. Nossas fronteiras são território livre para o comércio ilegal de armas e munições, que chegam a fazer tele-entrega, entregando em casa, em todo território nacional depois de um simples telefonema.

Recentemente os adeptos do desarmamento, ou melhor, do convencimento, se viram alimentados pelas palavras do Senador José Sarney, que se aproveitando de uma das tragédias mais graves que nosso país já testemunhou, chamado pela mídia de “O Massacre de Realengo” , para trazer novamente essa discussão à pauta, baseando-se em um argumento plenamente emocional: acidentes com crianças. O que rapidamente, apesar das limitações econômicas, foi demonstrado pelos movimentos contrários, baseados em dados e pesquisa, como uma estratégia ineficaz para impedir esses tristes episódios, que em sua maioria envolvem armas ilegais. Mas o estrago já estava feito, esse episódio passou a ser  o novissimo argumento desarmamentista da semana, amplamente utilizado em vídeos de fundo branco, com artistas populares vestidos de branco, algumas vezes até com as narinas brancas, nos dizendo que as pobres criancinhas estão morrendo de medo de serem baleadas por armas legalizadas.

Fica a pergunta: Se desarmamento não combate o crime, não diminuiu homicídios, não desarma os criminosos e não garante que acidentes deixem de acontecer, qual será a próxima desculpa esfarrapada elaborada pelos defensores do desarmamento? Que tal a verdade hein cambada?

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Solta o Verbo: Rachel Sheherazade

Dando continuidade à campanha contra a imbecilidade do politicamente correto (veja o começo de tudo clicando aqui e aqui), hoje apresentarei a quem por ventura ainda não conhece, uma pessoa surpreendente. A jovem, talentosa e belíssima jornalista que não tem papas na língua: Rachel Sheherazade.


Conheci seu trabalho ainda esse ano, 2011, quando navegando pela internet acabei por encontrar um video em que ela comentava sobre a sua opinião a respeito do carnaval. Dali em diante, tenho tentado acompanhar cada palavra que ela diz, não apenas motivado pela massagem que palavras bem colocadas fazem nos assuntos em que minha opinião é semelhante à dela, mas em todos os outros também, uma vez que ela não fala abobrinhas, como um sem-número de jornalistas irresponsáveis que ocupam posições de destaque no nosso país. Rachel é diferente, minhas amigas e meus amigos, ela não se prende ao que manda o regimento da burrice imposto pelo senso comum.
Bem, ao realizar uma breve pesquisa em busca de mais informações a respeito dessa moça que usa a linguagem como arma, logo percebi que ela é bastante jovem, e portanto, as informações que se encontra sobre “quem ela é” na internet infelizmente são bastante superficiais e incompletas. Mas é possível encontrar detalhes como por exemplo, o fato dela ter nascido em João Pessoa, capital da Paraíba, se formado em Jornalismo na Universidade Federal da Paraíba, ter trabalhado na TV Correio, afiliada da Rede Record na Paraíba, na TV Cabo Branco, afiliada da Rede Globo e em 2003, ter assumido a bancada do Tambaú Notícias, telejornal diário da TV Tambaú, afiliada do SBT na Paraíba.

Atualmente, Rachel Sheherazade é âncora (juntamente com Joseval Peixoto) no telejornal “SBT Brasil”.

Visite aqui o blog dela.

Senhoras e senhores, com a palavra, Rachel Sheherazade:







sexta-feira, 3 de junho de 2011

Família Contemporânea – Ato I

(Considerações em dois atos)
Ato I

A família não é mais a mesma. Tempos atrás o homem era o chefe do lar, a mulher a dona de casa e os meninos deveriam receber uma educação diferente das meninas. Mas hoje isso não é mais aceito. Os papeis masculino e feminino são flexíveis e o conceito de família está sendo reconstruído. O que está em pauta são as novas formas de relacionamento entre homens e mulheres.

O cenário moderno é de um mundo confuso, com crise no conhecimento, onde existe um questionamento da dominação masculina heterossexual. Existe neste cenário uma abertura para falar de masculinidades e feminilidades, entendidas como históricas primeiramente e fragmentadas, por conseguinte.

Há um clima de confusão na família contemporânea ocidental que se começou a viver na “era pós-feminista”. O maior marco da família, quando se fala de masculinos e femininos, são as transformações que a família sofreu após o Movimento Feminista. O Movimento Feminista trouxe para a mulher a liberdade de escolha. Com a pílula anticoncepcional, a opção de ter ou não ter filhos, acabou por caber dentro da bolsa. Com o divórcio, rompe-se com a jura do amor eterno. Com a conquista do mercado de trabalho as mulheres saiam de casa. Com a revolução feminista até a biologia deixou de ser fatalidade. Ser mulher e ser homem já não é mais tão simples.

Isso trouxe uma questão importante que foi desnaturalizar o masculino e o feminino. Sempre naturalizado como sendo algo que o biológico demarcava, noutros termos, o homem é diferente da mulher por uma questão biológica. Aquela discussão que existia, a partir da década de 1920 e 1930, onde as pesquisas que se faziam eram pesquisas muito pautadas em cima de “constatações” de que o biológico dava “x” características para as mulheres e “y” características para os homens. E era exatamente assim que nas famílias se fazia.

Quando se olhava para um menino ou menina na família se esperava exatamente aquilo: que o menino fosse melhor em matemática, que a menina tivesse maior fluência verbal, que menina tinha de usar cor-de-rosa, menino tinha que usar azul – era tudo demarcado. Então, quando se olhava na família, a expectativa era já que estes comportamentos se exteriorizassem. Assim, os pais constatavam: “este é um menino”, “esta é uma menina”.

É somente a partir da década de 1950, mais ou menos, que se começa a questionar se esses comportamentos estariam no inato, ou seja, no biológico ou se esses comportamentos não surgiriam do ambiente e do social. A família não era assim, a família se torna assim após a revolução industrial. Na Revolução Industrial as mulheres trabalhavam nas fábricas; e elas deixaram esses trabalhos para ficar em casa por serem deveras mal remuneradas em relação aos homens. Então eles passaram a fazer esse papel de trabalhar fora enquanto a mulher cuidava da casa. O homem então começa a ser o provedor e a mulher se encarregar do ambiente doméstico. Com isso fica socialmente demarcado: o homem tem essas funções e as mulheres tem aquelas funções.

Parece que a vida era mais fácil assim, porque isso era quase que inquestionável. Da mesma forma que meninos eram de um jeito e meninas de outro, os homens e as mulheres tinham já seu ambiente definido. A expectativa era de que estes comportamentos se dessem dessa forma. A facilidade aqui é de não ter que se questionar, de não ter que se desacomodar de um lugar que, por mais que não seja uma maravilha, já esta definido, demarcado e claro – e como nos dá medo ter que reinventar lugares, se repensar...

Então, nós estamos vivendo um momento (que podemos chamar de confuso), de ameaça tanto das masculinidades quanto das feminilidades. Parece também um momento muito rico, que se deve olhar com muita sensibilidade e que tem desdobramentos importantes. Porque nessas transformações, vivemos várias coisas ao mesmo tempo. Se a gente sair um pouco dos ambientes que normalmente circulamos, se começa a perceber a pluralidade das famílias.

As famílias são plurais. Uma enorme proporção de famílias hoje é chefiada por mulheres e outras são chefiadas por homens. Um grande número de divórcios tem criado uma configuração às vezes difícil de entender. Existem famílias com re-casamentos, reconstituições de universos familiares, onde filhos de uns convivem com filhos de outros, onde se acaba criando uma pluralidade de culturas, de expectativas de estar em família, expectativas plurais de como se dá esses masculinos e femininos.

Estas transformações não vem isentas de problemas. Essas pluralidades ao mesmo tempo que enriquecem, também fragilizam. Não se está aqui reclamando das transformações e dizendo que no passado era melhor. Não é “passadismo”, até porque não dá mais pra voltar ao que era (e creio que nem se deva querer que volte ao que era). Mas devemos continuar a refletir essas novas configurações familiares para tentarmos encontrar esses novos lugares que agora não estão mais pré-definidos.

terça-feira, 31 de maio de 2011

De homens e mulheres

(Algumas aproximações, em quatro tempos)

Primeiro tempo

Aproximar-se sem criar dependência. Aproximar-se apesar da distância da internet. Ser feliz sem se comprometer. Fugir da solidão sem abrir mão da individualidade. Estes são os conflitos das relações afetivas dos nossos dias. No mundo contemporâneo as relações se movem com enorme fluidez, o movimento é constante. Tudo é permitido. Nós esperamos respostas imediatas. O amor se torna um produto com prazo de validade. Esse é o Amor Líquido, termo cunhado pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman para descrever as relações afetivas de hoje: um mundo de infinitas possibilidades é também um mundo de constante insegurança.

Segundo tempo

Quando pensamos em duas pessoas como casal, no que liga um casal, tem algo que parece estar ameaçado – e é bom que esteja ameaçado – que é o mito do complementar. Se a gente pensa no masculino e no feminino como plural e movimento, a ideia de duas metades da laranja entra em falência. Porque essa ideia de uma junção automática, que ninguém tem que fazer nada e naturalmente tudo dá certo – parece que boa parte das pessoas que lerem este texto podem testemunhar com a própria vida – que essa ideia de junção automática não dá certo.

Não basta o desejo e o encontro para que se dê certo. Claro, acabamos jogando fora algo interessante que tinha nessa ideia romântica do casal complementar, mas que na verdade leva bastante gente à frustração. Frustração por esperar que uma imagem idealizada se conforme com o mundo da vida – quando isso não ocorre.

Na questão do casal, parece haver uma tensão. Se por um lado existem as tentativas de construção de uma relação mais igualitária, onde homem e mulher compartilham uma relação com equilíbrio de poderes (embora não se saiba muito bem como se faz isso, as coisas vão se fazendo). Por outro lado, o erotismo e a sexualidade, curiosamente, não são muito “politicamente correto”. Porque a sexualidade do casal também passa por fantasias e jogos de dominação, submissão, também passa por jogos de infantilização que são erotizados, e passa por “castigos” e “presentes”. Todo um universo do jogo de poder e da raiva, da agressividade, que estão relacionados com a expressão da sexualidade e que não estão necessariamente combinados de uma forma conjunta com a questão do casal igualitário que possa discutir a relação.

Qual é a diferença entre o masculino e o feminino? Porque, quando falamos em casal complementar, a diferença está excluída. Quando o Movimento Feminista reivindica a igualdade, a diferença está abolida nesta fala. Não é a diferença biológica que se pergunta aqui – já tão desconstruída atualmente. De fato não é a diferença aparente. Não sei exatamente qual que é a diferença entre masculino e feminino, mas é aí que circula o desejo.

Quando começa a não aparecer alguma diferença, a sexualidade quase que morre. Tem aí alguma coisa de misterioso ainda: como que a gente conquista a igualdade preservando as diferenças?

Terceiro tempo

Existe algo que ocorre no universo feminino em que a mulher espera coisas do homem. Creio que isso que ela espera circula, transita, na expectativa pelo amor romântico. Talvez não se limite nessa ideia de completude, de complementaridade, de colocar no outro a expectativa de completá-la, mas talvez uma ideia, uma espera, de se sentir desejada. De precisar confirmar que ela é desejada.

Principalmente hoje, onde tudo é retificado, restaurado. Vivemos no mundo das plásticas, da eterna juventude, as mulheres tem que cuidar muito bem do seu corpo, da sua pele... Essas mulheres que tem filhos e o peito caiu; tem filhos e vão fazer uma lipoaspiração. É na ilusão que essas coisas vão trazer pra ela essa confirmação do desejo. Talvez faça essas coisas exatamente porque não saiba mais onde está o desejo. Então, essa circulação de pensar no desejo, malfada expectativa de ter de volta com a plástica a desejabilidade de si pelo homem. Ora, quantas histórias já ouvimos de mulheres que se plastificaram e, mesmo ficando maravilhosas, seus maridos já não as desejavam mais? Quer dizer que não passa por aí o desejo – é outra coisa.

Há também a questão de que muitos homens chegam à família muito inexperientes – neófitos – recém saídos de suas mães. É como se eles somente mudassem de casa. Sai do colo da mãe e vai para outros braços, chegando nesse novo aconchego. E as mulheres estão muito felizes em fazer isso: acolher em seus braços um homem que queira a proteção deste aconchego. Então muitas mulheres “ajudam” a criar filhos mal saídos de suas mães; e muitos homens, bem criados por suas mulheres, vão embora – estão prontos para ir embora: para os braços de outra mulher.

Quarto tempo

Nós homens somos novos com relação a se tematizar. Tematizar o homem enquanto ser da relação homem-mulher. É como se discutir essas questões, ter que lidar com isso, é constatar uma perda de poder. Porque a ideia de não precisar discutir significa estar superior a estas questões. Só que enquanto alguns homens estão se colocando como superiores a essas questões, essas questões estão se dando e as coisas estão mudando.

No inicio da década de 1980 a questão do feminismo era muito evidente e os jovens homens se sentiam acuados. O adolescente queria seguir os grandes modelos masculinos e depois na vida adulta eles não sabiam o que fazer com as moças. Não só não se sabia o que fazer com elas como não podia perguntar. Ao menos hoje se pode perguntar – continua-se não se sabendo, mas pode perguntar. A ideia de que se tem que saber automaticamente “o que fazer” talvez tenha ficado menos forte: um sinal de flexibilização.

Se pensarmos que o que se está falando é na verdade que o homem nunca havia tematizado nada, não havia se tematizado, pouca coisa mudou. É dizer, o homem nunca tinha se pensado como homem – éramos sempre aquilo que é evidente: todos sabem o que é ‘homem’, seu papel e função na família. Esse “todos sabem” é justamente a negação de se tematizar. Ora, nós éramos tão auto-suficientes que nos restava apenas reclamar um pouco desse avanço que as mulheres estavam exercitando naquela época.

A impressão é que até hoje os homens se tematizam muito pouco. As mulheres conversam muito mais sobre sua condição do que os homens. Talvez é por estar ainda delegado às mulheres conversarem sobre o universo dos filhos, como se isso não fosse ainda um universo que os homens pudessem compartilhar. Como se fosse ainda um universo feminino e os homens ficassem “livres” deste universo, do universo das relações.

Elas falam de tudo, com muita naturalidade, elas falam de envelhecimento, de filhos, da vida, da sua sexualidade - de tudo. Nós homens quando nos encontramos, falamos de política, de mulher – bom, nem se fala tanto de mulher, não... Fala-se muito de futebol.

Acho que o futebol é fundamental pra preencher o imenso vazio masculino. Se não fosse o futebol de domingo, o que preencheria esse grande vazio?

sábado, 28 de maio de 2011

Neutralidade e Relativismo

“A ciência é neutra, pois usa métodos objetivos”

“Einstein já dizia que tudo é relativo!”

“Temos que ser neutros para bem decidir; afinal, tudo é relativo”

Eu não sei o que é pior. Se é o mito de que possamos conhecer a realidade de forma neutra, dito de outro modo, o mito de que existe um saber neutro e, portanto, teríamos no conhecimento científico o voto de minerva das contendas e a resposta aos problemas humanos - porque neutra não está do lado de ninguém, mas de todos. Ou se é pior a convicção mais ou menos geral de que tudo é relativo e, portanto, argumentar não teria muito valor, seria mera fantasia de pessoas obcecadas em te convencer – eu não gosto do teu argumento e pronto! Creio que o pior é quando estas duas ideias se articulam e se retroalimentam em uma única concepção (como na 3ª frase-mote deste post).

Se tudo é relativo, é relativo à que? Levi-Strauss fez certa vez um apontamento muito perspicaz: se gosto é relativo, então canibalismo é uma questão de gosto. Se há algum mérito na idéia de relativismo é o de ter rompido com o etnocentrismo europeu – e só. O problema de dizer que tudo é relativo é diluir a possibilidade de construir critérios que nos auxiliem a compreender certas questões (sejam teóricas ou práticas). Quando tudo é relativo, tudo é justificável e não há mais porque se argumentar – acabou a civilização! Sem argumentos voltamos ao tacape pra resolver divergências, algo meio hobbesiano.

E não dá pra aguentar o mau uso da referencia a Einstein sobre a relatividade de tudo. O que falam nas escolas nas aulas de física? Concordo que o nome da teoria dele em nada ajuda aos “não iniciados” a saberem do que se trata. A Teoria Geral da Relatividade trata justamente de encontrar uma base que não seja relativa à outra coisa, porque se tudo é relativo, essa “coisa” terá que ser relativa à outra e assim sucessivamente ao infinito. Einstein postulou que essa coisa que não é relativa a nada, mas ao que todas outras lhe tributam referencia, é a luz. Grosseiramente é isso.

Dá pra entender porque o argumento nietzscheano para a “morte de Deus” causou tanta revolta. Desde a filosofia de Descartes que Deus é o grande árbitro absoluto garantidor do acesso ao conhecimento da natureza pelo Homem. Deus era a “coisa” que não era relativa a nada. Com Deus “morto”, o Positivismo de Augusto Comte encontra morada no Reino dos Homens; e com ele a idéia de que conhecimento válido e verdadeiro é o científico... Claro, a ciência à La Comte. Max Weber dedica boa parte de seus trabalhos a questões de como ser neutro (p.ex. Ciência Como Vocação); notem que ele é desta época. Muita história rola a partir disto, mas não vou atordoar você leitor (ao menos neste post) com mais história. O que vale ficar dessa historieta é que se tentou convencer que ser científico é ser objetivo e para conseguir ser objetivo deve-se ser neutro.

Para acreditarmos no mito da neutralidade científica é preciso aceitar que o Homem pode olhar a natureza, o mundo, seja o que for, de fora. Afastado, intocado, sem contaminar o objeto de pesquisa e sem ser contaminado por ele. Que as pesquisas se dão sobre “dados” e fatos – como mostra a origem da palavra “dado” = “oferecido” pela natureza. Não tem nada “dado” na natureza, toda ciência constrói seus objetos e seus dados. O cientista sempre tem que escolher qual método vai usar – é ele que escolhe e não a natureza. Os métodos são construções teórico-filosoficas que sempre tem que assumir certos pressupostos para operar. Estes pressupostos condicionam os objetivos, os agentes e o funcionamento da ciência. Sofremos de uma concepção iluminista de que a verdade é alcançada com a descoberta de teorias, ocultas na natureza e postas ali por alguma divindade mitológica, bastando o ser humano descobrir quais são estas leis invariáveis da natureza para então dominá-la.

O ser humano faz parte dessa natureza que ele tenta entender; o que dirão ainda as Ciências Humanas, em que o pesquisador é o próprio objeto de pesquisa? Isso nada tem a ver com ideologia ecológica. Quer se dizer que a realidade humana é multidimensional, não existe fora da natureza, do mundo (do universo se quiserem). Ora se “a verdade” é um todo, certo e completo e cada ciência se baseia em uma única possibilidade, logo são falsas se pretenderem ser A Verdade. A ciência, como produto humano, é um poder exercido sobre as coisas e sobre os seres vivos, logo é necessário atingir uma reflexão sobre as decisões constitutivas dos diversos saberes das ciências humanas. A visão meramente objetivista, embora tente, não consegue fundar uma “ética do conhecimento”; entretanto não consegue prescindir de uma ética que lhe dê fundamento.

As condições onde se produzem os conhecimentos objetivos e racionalizados estão banhados por uma inegável atmosfera sócio-político-cultural. É dizer que não existe ciência “pura”, que a ciência é produto humano, que o cientista é atravessado pela subjetividade pessoal e social – quer goste ele ou não – a razão científica não é imutável. É histórica, social e cultural. O cientista não tem o privilégio da imunidade das injunções da mudança. Todavia, não significa por a ciência na lata do lixo – claro que não! É por isso que a atividade intelectual, que se pese científica, deve ser reflexiva e denunciar tudo o que parece se impor como “natural” ou “normal”. Humberto Maturana, em “Cognição, Ciência e Vida Cotidiana”, expressou isso sucintamente dizendo que não se foge de um posicionamento no mundo, sob pena de crer-se mero espectador do mundo; e, portanto, dotado de uma capacidade critica neutra.

Não há hoje cientista sério que acredite que a ciência dita verdades. O cientista de hoje sabe que ele não tem como provar nada, no máximo dizer em quais condições uma teoria pode ser refutada (Popper, Pierce, Lakatos, Godel). As publicações científicas são como os nossos jornais: as noticias de ontem tem menos relevo que as de hoje. Se o cientista não pode ser neutro, quem dirá nossas opiniões de botequim!

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Solta o Verbo - Luiz Carlos Prates

Dando continuidade ao assunto proposto no meu último post, hoje vou dar a palavra ao jornalista, radialista e psicólogo Luiz Carlos Prates.


Prates nasceu em Santiago (RS), no dia 26 de janeiro de 1943. 

Iniciou a carreira em Porto Alegre no ano de 1960, quando atuou na extinta Rádio Porto Alegre, onde foi repórter, locutor e narrador de futebol de salão e de basquete. 

Em 1961 transferiu-se para a Rádio Difusora e, logo em seguida, para a Rádio Guaíba, onde trabalhou por quase dez anos. 

De 1964 a 1969, foi repórter da emissora Voz da América no Brasil. 

Em dezembro de 1972, formou-se em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica – PUC - do Rio Grande do Sul. 

Em 1975, foi contratado pela Rádio Gaúcha, onde trabalhou durante sete anos. 

Em 1977, tornou-se apresentador do “Jornal do Almoço” na TV Gaúcha.

Como narrador esportivo, participou de quatro edições da Copa do Mundo, de 1978 a 1990. Ainda atuou na Rádio Farroupilha e na TV Difusora de Porto Alegre.

Em 1981, mudou-se para Santa Catarina, onde trabalhou na TV Eldorado, de Criciúma. E na TV Record de Florianópolis. Em 1983, assumiu o cargo de coordenador de esportes da RBS TV de Florianópolis. Na emissora, narrou partidas de futebol e atuou como comentarista esportivo do programa “Jornal do Almoço”.

Exerceu a função de comentarista do Jornal do Almoço, da RBS TV de Florianópolis (entre diversas outras atividades ligadas à profissão de jornalista) até janeiro de 2011, quando saiu do grupo RBS.

A empresa não confirma, mas a saída de Prates ocorre após incontáveis manifestações de protesto contra alguns comentários feitos pelo jornalista em seu espaço na RBS TV e que foram mal recebidos por parte da opinião pública.

Pois bem, se lá te calam meu caro Prates, aqui queremos te ouvir!


Senhoras e senhores,  agora com a palavra, Luiz Carlos Prates:


“As pessoas andam doentes porque estão infelizes.”

"Este é um povo estúpido que não reage."

“Orgulho é consciência de valor, de trabalho bem-feito.”

“Para um ‘não te quero’, a melhor resposta é ‘nem eu’”

"Qualquer miserável agora tem carro"

“Se a lei não presta, mude-se a lei!”

“O Brasil nunca cresceu tanto quanto sob, a chamada, ditadura militar”

"Ladrão tem que apanhar!"

“SAFADOS!” (Se referindo aos políticos envolvidos no escândalo das passagens aéreas).



Visite aqui o Blog dele.


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