“A ciência é neutra, pois usa métodos objetivos”
“Einstein já dizia que tudo é relativo!”
“Temos que ser neutros para bem decidir; afinal, tudo é relativo”
Eu não sei o que é pior. Se é o mito de que possamos conhecer a realidade de forma neutra, dito de outro modo, o mito de que existe um saber neutro e, portanto, teríamos no conhecimento científico o voto de minerva das contendas e a resposta aos problemas humanos - porque neutra não está do lado de ninguém, mas de todos. Ou se é pior a convicção mais ou menos geral de que tudo é relativo e, portanto, argumentar não teria muito valor, seria mera fantasia de pessoas obcecadas em te convencer – eu não gosto do teu argumento e pronto! Creio que o pior é quando estas duas ideias se articulam e se retroalimentam em uma única concepção (como na 3ª frase-mote deste post).
Se tudo é relativo, é relativo à que? Levi-Strauss fez certa vez um apontamento muito perspicaz: se gosto é relativo, então canibalismo é uma questão de gosto. Se há algum mérito na idéia de relativismo é o de ter rompido com o etnocentrismo europeu – e só. O problema de dizer que tudo é relativo é diluir a possibilidade de construir critérios que nos auxiliem a compreender certas questões (sejam teóricas ou práticas). Quando tudo é relativo, tudo é justificável e não há mais porque se argumentar – acabou a civilização! Sem argumentos voltamos ao tacape pra resolver divergências, algo meio hobbesiano.
E não dá pra aguentar o mau uso da referencia a Einstein sobre a relatividade de tudo. O que falam nas escolas nas aulas de física? Concordo que o nome da teoria dele em nada ajuda aos “não iniciados” a saberem do que se trata. A Teoria Geral da Relatividade trata justamente de encontrar uma base que não seja relativa à outra coisa, porque se tudo é relativo, essa “coisa” terá que ser relativa à outra e assim sucessivamente ao infinito. Einstein postulou que essa coisa que não é relativa a nada, mas ao que todas outras lhe tributam referencia, é a luz. Grosseiramente é isso.
Dá pra entender porque o argumento nietzscheano para a “morte de Deus” causou tanta revolta. Desde a filosofia de Descartes que Deus é o grande árbitro absoluto garantidor do acesso ao conhecimento da natureza pelo Homem. Deus era a “coisa” que não era relativa a nada. Com Deus “morto”, o Positivismo de Augusto Comte encontra morada no Reino dos Homens; e com ele a idéia de que conhecimento válido e verdadeiro é o científico... Claro, a ciência à La Comte. Max Weber dedica boa parte de seus trabalhos a questões de como ser neutro (p.ex. Ciência Como Vocação); notem que ele é desta época. Muita história rola a partir disto, mas não vou atordoar você leitor (ao menos neste post) com mais história. O que vale ficar dessa historieta é que se tentou convencer que ser científico é ser objetivo e para conseguir ser objetivo deve-se ser neutro.
Para acreditarmos no mito da neutralidade científica é preciso aceitar que o Homem pode olhar a natureza, o mundo, seja o que for, de fora. Afastado, intocado, sem contaminar o objeto de pesquisa e sem ser contaminado por ele. Que as pesquisas se dão sobre “dados” e fatos – como mostra a origem da palavra “dado” = “oferecido” pela natureza. Não tem nada “dado” na natureza, toda ciência constrói seus objetos e seus dados. O cientista sempre tem que escolher qual método vai usar – é ele que escolhe e não a natureza. Os métodos são construções teórico-filosoficas que sempre tem que assumir certos pressupostos para operar. Estes pressupostos condicionam os objetivos, os agentes e o funcionamento da ciência. Sofremos de uma concepção iluminista de que a verdade é alcançada com a descoberta de teorias, ocultas na natureza e postas ali por alguma divindade mitológica, bastando o ser humano descobrir quais são estas leis invariáveis da natureza para então dominá-la.
O ser humano faz parte dessa natureza que ele tenta entender; o que dirão ainda as Ciências Humanas, em que o pesquisador é o próprio objeto de pesquisa? Isso nada tem a ver com ideologia ecológica. Quer se dizer que a realidade humana é multidimensional, não existe fora da natureza, do mundo (do universo se quiserem). Ora se “a verdade” é um todo, certo e completo e cada ciência se baseia em uma única possibilidade, logo são falsas se pretenderem ser A Verdade. A ciência, como produto humano, é um poder exercido sobre as coisas e sobre os seres vivos, logo é necessário atingir uma reflexão sobre as decisões constitutivas dos diversos saberes das ciências humanas. A visão meramente objetivista, embora tente, não consegue fundar uma “ética do conhecimento”; entretanto não consegue prescindir de uma ética que lhe dê fundamento.
As condições onde se produzem os conhecimentos objetivos e racionalizados estão banhados por uma inegável atmosfera sócio-político-cultural. É dizer que não existe ciência “pura”, que a ciência é produto humano, que o cientista é atravessado pela subjetividade pessoal e social – quer goste ele ou não – a razão científica não é imutável. É histórica, social e cultural. O cientista não tem o privilégio da imunidade das injunções da mudança. Todavia, não significa por a ciência na lata do lixo – claro que não! É por isso que a atividade intelectual, que se pese científica, deve ser reflexiva e denunciar tudo o que parece se impor como “natural” ou “normal”. Humberto Maturana, em “Cognição, Ciência e Vida Cotidiana”, expressou isso sucintamente dizendo que não se foge de um posicionamento no mundo, sob pena de crer-se mero espectador do mundo; e, portanto, dotado de uma capacidade critica neutra.
Não há hoje cientista sério que acredite que a ciência dita verdades. O cientista de hoje sabe que ele não tem como provar nada, no máximo dizer em quais condições uma teoria pode ser refutada (Popper, Pierce, Lakatos, Godel). As publicações científicas são como os nossos jornais: as noticias de ontem tem menos relevo que as de hoje. Se o cientista não pode ser neutro, quem dirá nossas opiniões de botequim!
Se tudo é relativo, é relativo à que? Levi-Strauss fez certa vez um apontamento muito perspicaz: se gosto é relativo, então canibalismo é uma questão de gosto. Se há algum mérito na idéia de relativismo é o de ter rompido com o etnocentrismo europeu – e só. O problema de dizer que tudo é relativo é diluir a possibilidade de construir critérios que nos auxiliem a compreender certas questões (sejam teóricas ou práticas). Quando tudo é relativo, tudo é justificável e não há mais porque se argumentar – acabou a civilização! Sem argumentos voltamos ao tacape pra resolver divergências, algo meio hobbesiano.
E não dá pra aguentar o mau uso da referencia a Einstein sobre a relatividade de tudo. O que falam nas escolas nas aulas de física? Concordo que o nome da teoria dele em nada ajuda aos “não iniciados” a saberem do que se trata. A Teoria Geral da Relatividade trata justamente de encontrar uma base que não seja relativa à outra coisa, porque se tudo é relativo, essa “coisa” terá que ser relativa à outra e assim sucessivamente ao infinito. Einstein postulou que essa coisa que não é relativa a nada, mas ao que todas outras lhe tributam referencia, é a luz. Grosseiramente é isso.
Dá pra entender porque o argumento nietzscheano para a “morte de Deus” causou tanta revolta. Desde a filosofia de Descartes que Deus é o grande árbitro absoluto garantidor do acesso ao conhecimento da natureza pelo Homem. Deus era a “coisa” que não era relativa a nada. Com Deus “morto”, o Positivismo de Augusto Comte encontra morada no Reino dos Homens; e com ele a idéia de que conhecimento válido e verdadeiro é o científico... Claro, a ciência à La Comte. Max Weber dedica boa parte de seus trabalhos a questões de como ser neutro (p.ex. Ciência Como Vocação); notem que ele é desta época. Muita história rola a partir disto, mas não vou atordoar você leitor (ao menos neste post) com mais história. O que vale ficar dessa historieta é que se tentou convencer que ser científico é ser objetivo e para conseguir ser objetivo deve-se ser neutro.
Para acreditarmos no mito da neutralidade científica é preciso aceitar que o Homem pode olhar a natureza, o mundo, seja o que for, de fora. Afastado, intocado, sem contaminar o objeto de pesquisa e sem ser contaminado por ele. Que as pesquisas se dão sobre “dados” e fatos – como mostra a origem da palavra “dado” = “oferecido” pela natureza. Não tem nada “dado” na natureza, toda ciência constrói seus objetos e seus dados. O cientista sempre tem que escolher qual método vai usar – é ele que escolhe e não a natureza. Os métodos são construções teórico-filosoficas que sempre tem que assumir certos pressupostos para operar. Estes pressupostos condicionam os objetivos, os agentes e o funcionamento da ciência. Sofremos de uma concepção iluminista de que a verdade é alcançada com a descoberta de teorias, ocultas na natureza e postas ali por alguma divindade mitológica, bastando o ser humano descobrir quais são estas leis invariáveis da natureza para então dominá-la.
O ser humano faz parte dessa natureza que ele tenta entender; o que dirão ainda as Ciências Humanas, em que o pesquisador é o próprio objeto de pesquisa? Isso nada tem a ver com ideologia ecológica. Quer se dizer que a realidade humana é multidimensional, não existe fora da natureza, do mundo (do universo se quiserem). Ora se “a verdade” é um todo, certo e completo e cada ciência se baseia em uma única possibilidade, logo são falsas se pretenderem ser A Verdade. A ciência, como produto humano, é um poder exercido sobre as coisas e sobre os seres vivos, logo é necessário atingir uma reflexão sobre as decisões constitutivas dos diversos saberes das ciências humanas. A visão meramente objetivista, embora tente, não consegue fundar uma “ética do conhecimento”; entretanto não consegue prescindir de uma ética que lhe dê fundamento.
As condições onde se produzem os conhecimentos objetivos e racionalizados estão banhados por uma inegável atmosfera sócio-político-cultural. É dizer que não existe ciência “pura”, que a ciência é produto humano, que o cientista é atravessado pela subjetividade pessoal e social – quer goste ele ou não – a razão científica não é imutável. É histórica, social e cultural. O cientista não tem o privilégio da imunidade das injunções da mudança. Todavia, não significa por a ciência na lata do lixo – claro que não! É por isso que a atividade intelectual, que se pese científica, deve ser reflexiva e denunciar tudo o que parece se impor como “natural” ou “normal”. Humberto Maturana, em “Cognição, Ciência e Vida Cotidiana”, expressou isso sucintamente dizendo que não se foge de um posicionamento no mundo, sob pena de crer-se mero espectador do mundo; e, portanto, dotado de uma capacidade critica neutra.
Não há hoje cientista sério que acredite que a ciência dita verdades. O cientista de hoje sabe que ele não tem como provar nada, no máximo dizer em quais condições uma teoria pode ser refutada (Popper, Pierce, Lakatos, Godel). As publicações científicas são como os nossos jornais: as noticias de ontem tem menos relevo que as de hoje. Se o cientista não pode ser neutro, quem dirá nossas opiniões de botequim!
Nenhum comentário:
Postar um comentário