quarta-feira, 25 de maio de 2011

"Olhar-para"

“Mas que falta de respeito!”, “Ninguém respeita mais ninguém...”, “Fulano criticou as ideias de Sicrano, não se tem respeito hoje em dia!?”, “Imagina ir na casa de alguém sem avisar!? Cadê o respeito!?”, “Aquele político não respeita os trabalhadores”, “Isso não pode ser dito”, “As pessoas deviam calar se é pra ter essas opiniões” e por aí vai...

Quem já não ouviu estas ou outras frases como essas? Quantas vezes invocamos essa palavra – respeito – em situações tão diversas? Parece que estamos sempre prontos pra reclamarmos por respeito. Mas, mais de uma vez na vida teremos oportunidade (se já não tivemos) de ver duas pessoas reclamarem por respeito uma em relação a outra – e parecer que elas falam de coisas diferentes. Com isso podemos nos dar conta de uma coisa: não é evidente o que é respeito (ou a falta dele) para todos igualmente.

“Respeito se constrói” diz a voz popular – mas a partir de onde? Esta é uma questão complicada e somente por muita ingenuidade alguém diria ter isso claro prontamente, distanciado de uma reflexão. É complicada porque está ligada à ética – pois éthos, de onde vem a palavra, significa comportamento. Mesmo grandes filósofos já se “atrapalharam” com o tema. Então por que se importar com o assunto?

Ora, porque, como disse acima, usamos esse conceito com muita frequência e algo que usamos frequentemente deve ser melhor conhecido para ser melhor usado. Ainda que possa ser um tema difícil (até para filósofos) nada impede que se empreenda uma aproximação, que pode ampliar nosso entendimento (saindo de um mero senso comum) e que pode estar também equivocado (podendo ser revisado futuramente). O importante não é saber se estamos certos, mas ampliar nosso entendimento, saindo da ingenuidade. Se nunca dirigi um carro na vida, posso empreender uma aproximação de como se faz em uma auto-escola. Isso não me torna um profissional do volante e menos ainda um piloto de provas da 4Rodas, mas já passarei a entender aspectos de como se dirige que antes não percebia. Por isso, então, façamos uma aproximação disso, uma mera opinião, para que possamos juntos ter um olhar-para a condição do outro.

Não é mero acaso que escrevo “ter um olhar-para a condição do outro”. O motivo é simples. É que, por mais engraçado que pareça, a palavra respeito, em sua origem, significa exatamente isso: olhar para trás, considerar, examinar com atenção, ver as outras pessoas em sua condição, seja ela qual for, concordando ou não. Bom, se respeito é isso (perceber a visão de mundo do outro como tão digna quanto a minha) e cada ser humano é tão único que constitui um “universo particular”, então é como se cada um de nós fosse uma espécie de “país”. E, como todo país, esse “universo particular” que sou eu, você e todas as pessoas, tem limites.

O limite de meus desejos, direitos, de minhas liberdades, deste meu “território” é onde inicia o “universo particular” do outro! Ora, isso você já sabia e concordava, afinal existe até um ditado popular que nos diz que a “liberdade de um termina onde começa a do outro”. Então, onde quero chegar? Quero chegar aonde nos damos conta de que saber onde ficam as fronteiras desses “universos particulares” é uma das coisas mais difíceis. Tanto é difícil que inventaram mais de um ramo do saber pra estudar as relações humanas: a sociologia, a antropologia, ciência política, a ética etc. Algumas coisas das relações humanas são mais fáceis de apontar se o desrespeito ocorre; mas em outras, como na expressão de ideias, opiniões e críticas, frequentemente os limites não são nada claros. Em geral consideramos desrespeito, ou excesso de liberdade, as opiniões que nos desagradam fortemente.

Ora, também foi por isso, por essa dificuldade de definir onde começam e terminam nossas liberdades, que socialmente “inventou-se” a moralidade. Em princípio, a moral surge como uma tradição que aponta, doutrina ou ajuda as pessoas a saberem como agir em cada assunto da vida social. Claro que, nem eu nem você, concordamos com a maioria dos preceitos morais que acabaram se constituindo, na verdade, em preconceitos da sociedade que, ao invés de ajudar, muitas vezes atrapalham a vida. No geral, com esses “preceitos morais” conseguimos nos deslocar na vida social relativamente bem... Entretanto, uma multiplicidade de situações não tem “regras sociais” definidas de antemão; mantendo, a “fronteira” entre as liberdades de cada um, difusa.

Bom, se esses limites das minhas liberdades com as tuas liberdades não são tão bem definidos é notável que possa haver confusões entre as pessoas. E é o que acontece muito. As frases mote que iniciaram este post apontam para críticas de uma pessoa frente uma possível falta de respeito com outra. O ponto é que, possivelmente, aquela conduta do outro não é considerada um desrespeito, uma invasão do “universo particular”, por ele. Por exemplo, se eu criticar a teoria que um professor me apresenta isto pode ser considerado uma falta de respeito pelo professor ou pelos colegas, um “excesso de liberdades” do aluno, enquanto para mim é promover a reflexão. Posso dar opiniões, como este texto, ou os textos deste blog, que você pode não gostar; mas, nem por isso, se desrespeita alguém. Se dizem que certas coisas não podem ser ditas, certas opiniões são proibidas, certas ideias são subversivas... Bom, a liberdade de expressão acabou e a democracia falhou.

Não podemos ter medo de ideias, opiniões e críticas. Nada disso pode ser desrespeito, sejam as opiniões que se discorda ou as que se concorda. Temos que temer é o fim da liberdade de expressão, de ir-e-vir, de viver... Se “respeito se constrói”, então deve ser sobre os alicerces destas liberdades.

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