sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Seção Personalidades Estranhas - Bóris Iéltsin

Que Bóris Iéltsin foi um político russo que inseriu o capitalismo na Rússia e perdeu alguns dedos brincando com granadas na juventude, todo mundo sabe. Que o cara estava envolvido em escândalos e em altos casos de corrupção, todo mundo sabe. Que ele vivia bêbado e aprontando mil e uma peripécias pelo mundo todo mundo também sabe. E é por isso que nosso querido amigo de copo, amado por muitos levantadores de copos do planeta inteiro, é nossa personalidade estranha do momento.

Bóris Iéltsin

Não quero entrar no mérito político de tão mal falado homem. Não estou aqui pra julgar nem dar minha opinião sobre seus atos de governo ou suas escolhas políticas. Mas quero sim prestar uma homenagem ao pai da bebedeira russa, cuja personalidade, se fosse privada de nosso mundo, não nos permitiria dar tantas gargalhadas e ficar tão escandalizados com tantos vídeos bizarros vindo daquele país frio onde só tem louco e bebum.

Vodka russa

A bebida favorita de Bóris era a vodka, e sua preferida era a Stolichnaya, mas também gostava de tomar outras 42 marcas fabricadas na Rússia, gosto esse que permanecerá eternamente associado á sua imagem. Durante seu governo, que trouxe a Rússia ao mundo capitalista (em depreciação do socialismo), Iéltsin batalhou para que a indústria da vodka no país fosse liberta das restrições da distribuição mantidas pelo Estado, fazendo com que um número de indústrias da bebida razoavelmente grande ganhasse espaço no país. Alguns dos efeitos colaterais desse liberê geral foram que muita gente morreu por conta de vodkas de péssima qualidade e os problemas de alcoolismo que cresciam de forma assustadora, ameaçando até mesmo a economia do país. Com tudo isso, a regulamentação da bebida voltou, o que não impediu o mercado de vodka barata de aumentar. O país decretou estado de emergência em várias cidades devido á falta de capacidade dos hospitais de lidarem com a grande quantidade de indivíduos que consumiram vodka contaminada.

Há uma estimativa de que cerca de 42 mil russos morrem POR ANO em consequência da embriaguez de vodka barata (!!!! - isso corresponde à 116 mortes diárias, 5 mortes a cada hora), o que cria uma crescente preocupação no governo, afinal, com isso há uma estimativa de que até 2050 o país perca cerca de um terço de toda sua população (visto os problemas relacionados à natividade que colabora pra isso).

Mas voltando ao homem...

Iéltsin nunca escondeu seu problema crônico relacionado ao alcoolismo. Pelo contrário, era comum vê-lo aprontando das suas, seja dançando, seja caindo, seja bebendo. Em sua biografia também não esconde o jogo, diz que muitas vezes agiu sob influência do álcool no seu governo.

"Percebi que o álcool era a única maneira de aliviar o stress."

Outra cena muito comum era vê-lo cochilando em reuniões.

"Alguns dizem que a vodka atualmente é barata demais e que devíamos aumentar os preços. Mas eu ainda não tive coragem para isso. As pessoas têm sentimentos especiais por esta bebida. Elas não ligam de tomar um ou dois tragos depois do trabalho. Então não tenho pressa em aumentar os preços.”

Alguns fatos históricos

- 1989: teve que explicar ao Soviete Supremo o motivo de ter entrado numa delegacia em Moscou todo molhado e só de cueca;
- 1992: tocou colher (um instrumento musical russo) na cabeça de Askar Askayev, presidente da Quirguízia;
- 1994: em uma viagem de barco descendo o rio Volga, pediu a seus guarda-costas que atirassem seu porta voz na água. No mesmo ano, durante um desfile militar, pegou a batuta do líder da banda e tentou reger a orquestra. Depois, no mesmo dia, numa recepção, pegou um microfone e começou a cantar;
- Ainda em 1994, ao ser recebido pelo primeiro-ministro da Irlanda no aeroporto de Shannon, se recusou a sair do avião (provavelmente bêbado);
- 1995: flagrado beliscando a bunda de sua secretária numa reunião com correspondentes estrangeiros;
- 1996: dançou rock num comício, que rendeu muitas fotos engraçadas que abrilhantam o post;
- 1997: declarou, na Suécia, que iria reduzir o arsenal nuclear russo e buscar uma proibição mundial. Seu porta-voz depois disse pra não serem levadas a sério suas declarações;
- Existe um campeonato na Rússia chamado "Boris Yeltsin Cup". Não se trata de campeonato de vodka, mas sim de um campeonato de tênis, por incrível que possa parecer.

Alguns fatos também geraram polêmicas mas se desconfia que não passam de boatos. Por exemplo, Bill Clinton em seu livro de memórias, afirma que certa vez Iéltsin foi encontrado perto da Casa Branca de cueca, na madrugada, bêbado e procurando uma pizza, durante uma visita à Washington.






Morte

Bóris Iéltsin faleceu aos 76 anos. Desta vez, quando caiu, caiu pra não mais levantar.

*Agradeço meu colega Paulo por ter comentado sobre esta personalidade estranha e ter me dado à idéia de escrever sobre ele.



quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Batalha de Titãs


(ou para que falar de filosofia hoje?)

Em poética prosa

Olhamos para todos os lados e vemos somente um corredor escuro e estreito. Um pouco baixo e um pouco torto para um corredor de apartamento normal... Normal: palavra estranha atualmente. Mas, este corredor não é somente um corredor, é um túnel cavado para fugir da prisão. Uma leve iridescência paira prisioneira e se espalha pelas paredes desse corredor. Nem dia ou noite muda essa atmosfera regada por uma lâmpada fraca, mortiça e triste.
Nosso mundo está nesse corredor. Claro, existe uma janelinha protegida por venezianas de metal. Nela tentamos desesperadamente vislumbrar alguma coisa através das frestas. Talvez uma paisagem que se estenda além do oriente. Mesmo com muito esforço, mal avistamos um cipreste poeirento e um muro de pedras irregulares. Onde agoniza um mísero raio de sol, um pálido crisântemo se exprime tal como um viajante com sede vindo do deserto. Uma caixa de leite cortada no cimo servindo de vaso.
Pode esta cena lembrar o mundo desencantado em que vivemos hoje? Se as palavras acima ressoam uma voz de amor e trevas amóziana, não é mera coincidência. Se um filósofo há 2500 anos deu as bases de nosso mundo, outro desferiu um golpe tão profundo que estamos perdidos... Ou sempre estivemos, mas não reconhecíamos. A falta de sentido no que vemos ocorrer a nossa volta todos os dias (terrorismos, pedofilias, misérias extremas – material e espiritual –, hipocrisia do escárnio etc) é o lembrete incômodo de que as asas negras tocarão a todos sem exceção, sem motivo, sem direção; mesmo com os novos “sinais de sangue” tecnológicos, saberemos o gosto do sal do deserto, porque todo sentido foi perdido.
...
Em prosa poética

Falemos claramente: o “instinto” estava fadado a ser banido do projeto cultural de toda a Civilização Ocidental nos próximos 2500 anos quando uma grande aberração nasceu no mundo: Sócrates. É assim que se passa a ver este grego se evisceramos os olhos de Friedrich Nietzsche e pomo-los no lugar dos nossos próprios.
“Como assim, só por instinto?”, brada o filósofo alemão contra Sócrates, para quem uma ação motivada “apenas” por instinto não poderia ser considerada válida. Segundo Sócrates, o único fundamento aceitável para nossas ações, e para a vida em geral é a racionalidade. Diante da assertiva do pensador grego, Nietzsche sentencia, em O Nascimento da Tragédia (1871), que esse é o início do fim: a máxima socrática decreta o declínio da civilização ocidental, quando passamos a ser orientados a duvidar do nosso instinto, a ignorar nossa intuição e a conter os sentimentos em função da razão.
O instinto, conforme Nietzsche, é o que nos vincula às forças telúricas, no momento em que passamos a não mais segui-lo nos distanciamos da natureza, vamos deixando de comungar do arrebatamento e do êxtase provocados pelo encontro entre a Terra e seus discípulos (era esse estado que o teatro trágico da Grécia pré-socrática representava). Tais manifestações da comunhão entre natureza e ser, antes vivenciadas em tudo aquilo que portavam de mais belo, terrível e intenso, passam a se mostrar estranhas, desconhecidas, porque são agora exteriores ao ser. Surge então o medo, e quem tem medo demanda controle, e eis que testemunhamos a origem do esforço amedrontado em domar a natureza, nos fala Nietzsche.
Reduzimos o existir a medir, quantificar, analisar, racionalizar, teorizar, modelar, sistematizar... Os mestres da crise humana: Sócrates, Aristóteles, Bacon, Descartes... A “modernidade” se instala triunfalmente: somos Homo Sapiens ou Mono¹ Sapiens? Diz Nietzsche que é aqui chegamos. Onde o senso comum vê evolução, o filósofo alemão vê crepúsculo.
O homem moderno é um ser que tem medo da vida: para ele, existir, é algo ameaçador. Ao seu espírito abandonado pelas forças naturais, ao seu corpo órfão do instinto que lhe guiava, só resta lutar pela sobrevivência: nesta batalha de titãs nem Darwin escapa aos martelos de Thor de Nietzsche, em Crepúsculo dos Ídolos (1888). Diz o filósofo que o evolucionista é o porta-voz da pequenez do homem moderno... Somente para os pequenos de espírito é que faz sentido “sobreviver” - na natureza os seres se afirmam, os seres vivem! A natureza é abundância, a natureza é excesso, a natureza é prodigalidade.
Para que falar de filosofia hoje? Não existem mais grandes sistemas filosóficos, nem certezas absolutas, verdades últimas, a história não teve um fim, as grandes utopias agora podem ser compradas no shopping: as bases em que nosso mundo se ergueu estão em ruínas. Então é tempo de cartografar, à moda Deleuze, novos caminhos... Sem poesia e sem filosofia? É justamente por essa falta que caminhamos sobre escombros, tumbas de antigos deuses ainda vivificados em simulacro por nosso apego à velhas reminiscências.
Para que falar de filosofia hoje? Mudemos a pergunta: há ainda que se perguntar para que ela serve? Ou você está se lamentando ou caminhando sobre túmulos de deuses moribundos.

¹ Mono: nombre genérico con que se designa a cualquiera de los animales del suborden de los Simios. Diccionario de La Lengua Española, 23ª ed. Real Academia Española.