quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Batalha de Titãs


(ou para que falar de filosofia hoje?)

Em poética prosa

Olhamos para todos os lados e vemos somente um corredor escuro e estreito. Um pouco baixo e um pouco torto para um corredor de apartamento normal... Normal: palavra estranha atualmente. Mas, este corredor não é somente um corredor, é um túnel cavado para fugir da prisão. Uma leve iridescência paira prisioneira e se espalha pelas paredes desse corredor. Nem dia ou noite muda essa atmosfera regada por uma lâmpada fraca, mortiça e triste.
Nosso mundo está nesse corredor. Claro, existe uma janelinha protegida por venezianas de metal. Nela tentamos desesperadamente vislumbrar alguma coisa através das frestas. Talvez uma paisagem que se estenda além do oriente. Mesmo com muito esforço, mal avistamos um cipreste poeirento e um muro de pedras irregulares. Onde agoniza um mísero raio de sol, um pálido crisântemo se exprime tal como um viajante com sede vindo do deserto. Uma caixa de leite cortada no cimo servindo de vaso.
Pode esta cena lembrar o mundo desencantado em que vivemos hoje? Se as palavras acima ressoam uma voz de amor e trevas amóziana, não é mera coincidência. Se um filósofo há 2500 anos deu as bases de nosso mundo, outro desferiu um golpe tão profundo que estamos perdidos... Ou sempre estivemos, mas não reconhecíamos. A falta de sentido no que vemos ocorrer a nossa volta todos os dias (terrorismos, pedofilias, misérias extremas – material e espiritual –, hipocrisia do escárnio etc) é o lembrete incômodo de que as asas negras tocarão a todos sem exceção, sem motivo, sem direção; mesmo com os novos “sinais de sangue” tecnológicos, saberemos o gosto do sal do deserto, porque todo sentido foi perdido.
...
Em prosa poética

Falemos claramente: o “instinto” estava fadado a ser banido do projeto cultural de toda a Civilização Ocidental nos próximos 2500 anos quando uma grande aberração nasceu no mundo: Sócrates. É assim que se passa a ver este grego se evisceramos os olhos de Friedrich Nietzsche e pomo-los no lugar dos nossos próprios.
“Como assim, só por instinto?”, brada o filósofo alemão contra Sócrates, para quem uma ação motivada “apenas” por instinto não poderia ser considerada válida. Segundo Sócrates, o único fundamento aceitável para nossas ações, e para a vida em geral é a racionalidade. Diante da assertiva do pensador grego, Nietzsche sentencia, em O Nascimento da Tragédia (1871), que esse é o início do fim: a máxima socrática decreta o declínio da civilização ocidental, quando passamos a ser orientados a duvidar do nosso instinto, a ignorar nossa intuição e a conter os sentimentos em função da razão.
O instinto, conforme Nietzsche, é o que nos vincula às forças telúricas, no momento em que passamos a não mais segui-lo nos distanciamos da natureza, vamos deixando de comungar do arrebatamento e do êxtase provocados pelo encontro entre a Terra e seus discípulos (era esse estado que o teatro trágico da Grécia pré-socrática representava). Tais manifestações da comunhão entre natureza e ser, antes vivenciadas em tudo aquilo que portavam de mais belo, terrível e intenso, passam a se mostrar estranhas, desconhecidas, porque são agora exteriores ao ser. Surge então o medo, e quem tem medo demanda controle, e eis que testemunhamos a origem do esforço amedrontado em domar a natureza, nos fala Nietzsche.
Reduzimos o existir a medir, quantificar, analisar, racionalizar, teorizar, modelar, sistematizar... Os mestres da crise humana: Sócrates, Aristóteles, Bacon, Descartes... A “modernidade” se instala triunfalmente: somos Homo Sapiens ou Mono¹ Sapiens? Diz Nietzsche que é aqui chegamos. Onde o senso comum vê evolução, o filósofo alemão vê crepúsculo.
O homem moderno é um ser que tem medo da vida: para ele, existir, é algo ameaçador. Ao seu espírito abandonado pelas forças naturais, ao seu corpo órfão do instinto que lhe guiava, só resta lutar pela sobrevivência: nesta batalha de titãs nem Darwin escapa aos martelos de Thor de Nietzsche, em Crepúsculo dos Ídolos (1888). Diz o filósofo que o evolucionista é o porta-voz da pequenez do homem moderno... Somente para os pequenos de espírito é que faz sentido “sobreviver” - na natureza os seres se afirmam, os seres vivem! A natureza é abundância, a natureza é excesso, a natureza é prodigalidade.
Para que falar de filosofia hoje? Não existem mais grandes sistemas filosóficos, nem certezas absolutas, verdades últimas, a história não teve um fim, as grandes utopias agora podem ser compradas no shopping: as bases em que nosso mundo se ergueu estão em ruínas. Então é tempo de cartografar, à moda Deleuze, novos caminhos... Sem poesia e sem filosofia? É justamente por essa falta que caminhamos sobre escombros, tumbas de antigos deuses ainda vivificados em simulacro por nosso apego à velhas reminiscências.
Para que falar de filosofia hoje? Mudemos a pergunta: há ainda que se perguntar para que ela serve? Ou você está se lamentando ou caminhando sobre túmulos de deuses moribundos.

¹ Mono: nombre genérico con que se designa a cualquiera de los animales del suborden de los Simios. Diccionario de La Lengua Española, 23ª ed. Real Academia Española.

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