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quarta-feira, 30 de novembro de 2011
O Bicho Papão é Destro?
terça-feira, 27 de setembro de 2011
Entre o Óleo de Peroba e o Kevlar¹
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Dou Uns Tiro Mas Não Atiro
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Seção Personalidades Estranhas - Bóris Iéltsin
Que Bóris Iéltsin foi um político russo que inseriu o capitalismo na Rússia e perdeu alguns dedos brincando com granadas na juventude, todo mundo sabe. Que o cara estava envolvido em escândalos e em altos casos de corrupção, todo mundo sabe. Que ele vivia bêbado e aprontando mil e uma peripécias pelo mundo todo mundo também sabe. E é por isso que nosso querido amigo de copo, amado por muitos levantadores de copos do planeta inteiro, é nossa personalidade estranha do momento.
Bóris Iéltsin
Não quero entrar no mérito político de tão mal falado homem. Não estou aqui pra julgar nem dar minha opinião sobre seus atos de governo ou suas escolhas políticas. Mas quero sim prestar uma homenagem ao pai da bebedeira russa, cuja personalidade, se fosse privada de nosso mundo, não nos permitiria dar tantas gargalhadas e ficar tão escandalizados com tantos vídeos bizarros vindo daquele país frio onde só tem louco e bebum.
Vodka russa
A bebida favorita de Bóris era a vodka, e sua preferida era a Stolichnaya, mas também gostava de tomar outras 42 marcas fabricadas na Rússia, gosto esse que permanecerá eternamente associado á sua imagem. Durante seu governo, que trouxe a Rússia ao mundo capitalista (em depreciação do socialismo), Iéltsin batalhou para que a indústria da vodka no país fosse liberta das restrições da distribuição mantidas pelo Estado, fazendo com que um número de indústrias da bebida razoavelmente grande ganhasse espaço no país. Alguns dos efeitos colaterais desse liberê geral foram que muita gente morreu por conta de vodkas de péssima qualidade e os problemas de alcoolismo que cresciam de forma assustadora, ameaçando até mesmo a economia do país. Com tudo isso, a regulamentação da bebida voltou, o que não impediu o mercado de vodka barata de aumentar. O país decretou estado de emergência em várias cidades devido á falta de capacidade dos hospitais de lidarem com a grande quantidade de indivíduos que consumiram vodka contaminada.
Há uma estimativa de que cerca de 42 mil russos morrem POR ANO em consequência da embriaguez de vodka barata (!!!! - isso corresponde à 116 mortes diárias, 5 mortes a cada hora), o que cria uma crescente preocupação no governo, afinal, com isso há uma estimativa de que até 2050 o país perca cerca de um terço de toda sua população (visto os problemas relacionados à natividade que colabora pra isso).
Mas voltando ao homem...
Iéltsin nunca escondeu seu problema crônico relacionado ao alcoolismo. Pelo contrário, era comum vê-lo aprontando das suas, seja dançando, seja caindo, seja bebendo. Em sua biografia também não esconde o jogo, diz que muitas vezes agiu sob influência do álcool no seu governo.
"Percebi que o álcool era a única maneira de aliviar o stress."
Outra cena muito comum era vê-lo cochilando em reuniões.
"Alguns dizem que a vodka atualmente é barata demais e que devíamos aumentar os preços. Mas eu ainda não tive coragem para isso. As pessoas têm sentimentos especiais por esta bebida. Elas não ligam de tomar um ou dois tragos depois do trabalho. Então não tenho pressa em aumentar os preços.”
Alguns fatos históricos
- 1989: teve que explicar ao Soviete Supremo o motivo de ter entrado numa delegacia em Moscou todo molhado e só de cueca;
- 1992: tocou colher (um instrumento musical russo) na cabeça de Askar Askayev, presidente da Quirguízia;
- 1994: em uma viagem de barco descendo o rio Volga, pediu a seus guarda-costas que atirassem seu porta voz na água. No mesmo ano, durante um desfile militar, pegou a batuta do líder da banda e tentou reger a orquestra. Depois, no mesmo dia, numa recepção, pegou um microfone e começou a cantar;
- Ainda em 1994, ao ser recebido pelo primeiro-ministro da Irlanda no aeroporto de Shannon, se recusou a sair do avião (provavelmente bêbado);
- 1995: flagrado beliscando a bunda de sua secretária numa reunião com correspondentes estrangeiros;
- 1996: dançou rock num comício, que rendeu muitas fotos engraçadas que abrilhantam o post;
- 1997: declarou, na Suécia, que iria reduzir o arsenal nuclear russo e buscar uma proibição mundial. Seu porta-voz depois disse pra não serem levadas a sério suas declarações;
- Existe um campeonato na Rússia chamado "Boris Yeltsin Cup". Não se trata de campeonato de vodka, mas sim de um campeonato de tênis, por incrível que possa parecer.
Alguns fatos também geraram polêmicas mas se desconfia que não passam de boatos. Por exemplo, Bill Clinton em seu livro de memórias, afirma que certa vez Iéltsin foi encontrado perto da Casa Branca de cueca, na madrugada, bêbado e procurando uma pizza, durante uma visita à Washington.
Bóris Iéltsin faleceu aos 76 anos. Desta vez, quando caiu, caiu pra não mais levantar.
*Agradeço meu colega Paulo por ter comentado sobre esta personalidade estranha e ter me dado à idéia de escrever sobre ele.
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
Batalha de Titãs
sexta-feira, 29 de julho de 2011
Solta o Verbo: Rachel Sheherazade
Visite aqui o blog dela.
terça-feira, 19 de julho de 2011
Seção Personalidades Estranhas - Ottomar Berbig
Ottomar Berbig foi um socialite alemão nascido em 10 de Outubro de 1940 na Berlim ocidental e que alcançou a fama através da reivindicação de pertencer à linhagem de Vlad Dracula.
Vlad III, príncipe da Valáquia, conhecido por Vlad, O E
mpalador (Vlad Tepes), ou como Dracula. Seu sobrenome serviu de inspiração para Bram Stoker nomear seu vampiro Conde Drácula. O sobrenome romeno de Vlad (Draculea, também escrito Drakulya) veio em referência a seu pai Vlad Dracul. Vlad Dracul foi morto pelos boiardos que se juntaram a John Hunyadi. Vlad III então fugiu e se exilou na Hungria, até retornar ao poder. Ao retornar, planejou matar os boiardos para se vingar da morte de seus pais, plano que executou com maestria, dez anos depois, num domingo de páscoa em torno de 1457, primeiramente empalando os boiardos mais velhos e famílias. Os boiardos jovens e saudáveis foram utilizados para reconstruir o castelo nas ruínas do Poienari, que se tornou sua fortaleza. Após a construção, os boiardos que haviam sobrevivido e não morreram de exaustão - já praticamente todos nus, pois trabalharam até inutilizarem suas próprias roupas - foram empalados. Outras atrocidades cometidas por Vlad nas histórias alemãs incluem além do empalamento a tortura, queima, esfolamento, corte de membros e afogamentos (além de assar ou ferver as pessoas, servindo à carne aos amigos e parentes da mesma). Esses castigos eram aplicados a ladrões, mentirosos e adúlteros. Esta foi a maneira que Vlad utilizou para manter a ordem no seu povo: ensinando-lhes que o roubo não seria tolerado em suas terras. E assim foi: puniu quem quebrou as leis, sejam homens ou mulheres, de qualquer classe social, idade ou religião.
Berbig era um padeiro em 1980 quando conheceu Ekaterina Olympia Kretzulesco, de legítima descendência consanguínea do lendário conde Vlad Dracul. Tornaram-se amigos e Ekaterina então adotou Berbig como seu filho, visto que a mesma não possuía herdeiros e queria garantir a continuidade da linhagem familiar, e estava impressionada com a aparência de Berbig, com seu cabelo preto encaracolado e bigode "transilvaniano".
Ekaterina Olympia Kretzulesco nasceu em Bucareste, em 28 de janeiro de 1893 e morreu em 26 de maio de 1993. Foi uma célebre aristocrata e filantropa romena, descendente de sangue de Vlad Dracul. Cresceu na Inglaterra e na França, e viveu na Romênia entre 1908 e 1952, quando fugiu do regime comunista, indo para os Estados Unidos, onde permaneceu por 35 anos no Texas, retornando para Bucareste após a Revolução Romena de 1989, onde morreu centenária.
Mudou seu nome então para Ottomar Rodolphe Vlad Dracula Prinz Kretzulesco, e imediatamente transformou o castelo localizado em Schenkendorf (Brandenburg) em um "museu de va
mpiros". Organizou as "festas dos sugadores de sangue" em conjunto com a Cruz Vermelha Alemã, na qual os convidados deveriam doar sangue, na sala de número 46. Também organizou inúmeros eventos de caridade, incluindo festivais medievais e reuniões para histórias assustadoras na "hora do fantasma". Rejeitando a tradição da família, não usava dentes postiços, porém utilizava um caixão para receber os visitantes, além de servir um schnapps com cor de sangue (Bloody Mary) e "salsichas do Drácula". Abriu um negócio de vinhos chamado "Castle of Dracula", e após uma briga com o governo alemão por conta dos altos impostos cobrados pelo mesmo, proclamou a cidade como "Principado do Dracula", dizendo que no "reino de Drácula" os impostos não passariam de 20%. Chegou mesmo a imprimir passaportes próprios, e criou planos para selos e placas de carros, mas a tentativa não obteve sucesso, tanto que o Estado, com um senso de humor incomum, ameaçou se "defender com alho" contra os objetivos de independência de Berbig.
Em 2003, Berbig, ou Rodolphe Vlad Dracula Kretzulesco, como queira, foi convidado a ser clonado pela empresa Clonaid (liderada pela seita dos Realianos) pelo valor de US$ 200 mil e negou, emitindo um comunicado á imprensa onde solicitava ás autoridades mais rigidez na proibição da clonagem, para evitar que pessoas tão loucas como o ditador Saddam Hussein fossem clonados.
Dificuldades financeiras com a burocracia local e problemas com neonazistas (Berbig foi ameaçado de morte, por 10 vezes foi atacado por incendiários e os muros do castelo de Schenkendorf foram pixados com suásticas pelo fato de Berbig ser um estrangeiro) o obrigaram a sair do palácio em 2006: "Eu quero sair daqui", disse. "Eu não quero mais viver aqui. Estou com medo. Eu quero viver em paz. Eu não consigo mais dormir à noite sem me preocupar em acordar em meio a um incêndio". Certa noite um grupo de 35 neonazistas ficaram em seu jardim cantando canções e carregando bandeiras nazistas. Eles gritavam frases anti-semitas, como "fora judeus" e "porcos judeus", o que pode indicar que o verdadeiro problema era com o castelo, propriedade de 32 hectares que pertencia a uma família judia. Em novembro de 2007 Berbig faleceu de tumor cerebral, porém deixando a linhagem dos Dráculas viva através do seu filho, Ottomar Dracula Junior, nascido no mesmo ano de sua morte.
Curiosidade: em 2000, Berbig participou, como Ottomar Rodolphe Vlad Dracula Prinz Kretzulesco, de uma faixa chamada "Mille Anni Passi Sunt", do disco de mesmo nome da banda Corvus Corax.
Corvus Corax é uma banda alemã conhecida por tocar música medieval com instrumentos autênticos. Seu nome é o nome científico do corvo. A banda foi formada em 1989 por Castus Rabensang, Win (Venustus) e Meister Selbfried. Frequentemente usa gaita de fole como instrumento solo e suas performances ao vivo atraem a atenção pela estranheza dos músicos, que se utilizam da reminiscência de antigos mitos gregos: seminus, com roupas diferentes, usando artigos estranhos como decoração, e tatuados.
sexta-feira, 3 de junho de 2011
Família Contemporânea – Ato I
A família não é mais a mesma. Tempos atrás o homem era o chefe do lar, a mulher a dona de casa e os meninos deveriam receber uma educação diferente das meninas. Mas hoje isso não é mais aceito. Os papeis masculino e feminino são flexíveis e o conceito de família está sendo reconstruído. O que está em pauta são as novas formas de relacionamento entre homens e mulheres.
O cenário moderno é de um mundo confuso, com crise no conhecimento, onde existe um questionamento da dominação masculina heterossexual. Existe neste cenário uma abertura para falar de masculinidades e feminilidades, entendidas como históricas primeiramente e fragmentadas, por conseguinte.
Há um clima de confusão na família contemporânea ocidental que se começou a viver na “era pós-feminista”. O maior marco da família, quando se fala de masculinos e femininos, são as transformações que a família sofreu após o Movimento Feminista. O Movimento Feminista trouxe para a mulher a liberdade de escolha. Com a pílula anticoncepcional, a opção de ter ou não ter filhos, acabou por caber dentro da bolsa. Com o divórcio, rompe-se com a jura do amor eterno. Com a conquista do mercado de trabalho as mulheres saiam de casa. Com a revolução feminista até a biologia deixou de ser fatalidade. Ser mulher e ser homem já não é mais tão simples.
Isso trouxe uma questão importante que foi desnaturalizar o masculino e o feminino. Sempre naturalizado como sendo algo que o biológico demarcava, noutros termos, o homem é diferente da mulher por uma questão biológica. Aquela discussão que existia, a partir da década de 1920 e 1930, onde as pesquisas que se faziam eram pesquisas muito pautadas em cima de “constatações” de que o biológico dava “x” características para as mulheres e “y” características para os homens. E era exatamente assim que nas famílias se fazia.
Quando se olhava para um menino ou menina na família se esperava exatamente aquilo: que o menino fosse melhor em matemática, que a menina tivesse maior fluência verbal, que menina tinha de usar cor-de-rosa, menino tinha que usar azul – era tudo demarcado. Então, quando se olhava na família, a expectativa era já que estes comportamentos se exteriorizassem. Assim, os pais constatavam: “este é um menino”, “esta é uma menina”.
É somente a partir da década de 1950, mais ou menos, que se começa a questionar se esses comportamentos estariam no inato, ou seja, no biológico ou se esses comportamentos não surgiriam do ambiente e do social. A família não era assim, a família se torna assim após a revolução industrial. Na Revolução Industrial as mulheres trabalhavam nas fábricas; e elas deixaram esses trabalhos para ficar em casa por serem deveras mal remuneradas em relação aos homens. Então eles passaram a fazer esse papel de trabalhar fora enquanto a mulher cuidava da casa. O homem então começa a ser o provedor e a mulher se encarregar do ambiente doméstico. Com isso fica socialmente demarcado: o homem tem essas funções e as mulheres tem aquelas funções.
Parece que a vida era mais fácil assim, porque isso era quase que inquestionável. Da mesma forma que meninos eram de um jeito e meninas de outro, os homens e as mulheres tinham já seu ambiente definido. A expectativa era de que estes comportamentos se dessem dessa forma. A facilidade aqui é de não ter que se questionar, de não ter que se desacomodar de um lugar que, por mais que não seja uma maravilha, já esta definido, demarcado e claro – e como nos dá medo ter que reinventar lugares, se repensar...
Então, nós estamos vivendo um momento (que podemos chamar de confuso), de ameaça tanto das masculinidades quanto das feminilidades. Parece também um momento muito rico, que se deve olhar com muita sensibilidade e que tem desdobramentos importantes. Porque nessas transformações, vivemos várias coisas ao mesmo tempo. Se a gente sair um pouco dos ambientes que normalmente circulamos, se começa a perceber a pluralidade das famílias.
As famílias são plurais. Uma enorme proporção de famílias hoje é chefiada por mulheres e outras são chefiadas por homens. Um grande número de divórcios tem criado uma configuração às vezes difícil de entender. Existem famílias com re-casamentos, reconstituições de universos familiares, onde filhos de uns convivem com filhos de outros, onde se acaba criando uma pluralidade de culturas, de expectativas de estar em família, expectativas plurais de como se dá esses masculinos e femininos.
Estas transformações não vem isentas de problemas. Essas pluralidades ao mesmo tempo que enriquecem, também fragilizam. Não se está aqui reclamando das transformações e dizendo que no passado era melhor. Não é “passadismo”, até porque não dá mais pra voltar ao que era (e creio que nem se deva querer que volte ao que era). Mas devemos continuar a refletir essas novas configurações familiares para tentarmos encontrar esses novos lugares que agora não estão mais pré-definidos.
terça-feira, 31 de maio de 2011
Flexibilização nas relações de trabalho.
De homens e mulheres
Primeiro tempo
Aproximar-se sem criar dependência. Aproximar-se apesar da distância da internet. Ser feliz sem se comprometer. Fugir da solidão sem abrir mão da individualidade. Estes são os conflitos das relações afetivas dos nossos dias. No mundo contemporâneo as relações se movem com enorme fluidez, o movimento é constante. Tudo é permitido. Nós esperamos respostas imediatas. O amor se torna um produto com prazo de validade. Esse é o Amor Líquido, termo cunhado pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman para descrever as relações afetivas de hoje: um mundo de infinitas possibilidades é também um mundo de constante insegurança.
Segundo tempo
Quando pensamos em duas pessoas como casal, no que liga um casal, tem algo que parece estar ameaçado – e é bom que esteja ameaçado – que é o mito do complementar. Se a gente pensa no masculino e no feminino como plural e movimento, a ideia de duas metades da laranja entra em falência. Porque essa ideia de uma junção automática, que ninguém tem que fazer nada e naturalmente tudo dá certo – parece que boa parte das pessoas que lerem este texto podem testemunhar com a própria vida – que essa ideia de junção automática não dá certo.
Não basta o desejo e o encontro para que se dê certo. Claro, acabamos jogando fora algo interessante que tinha nessa ideia romântica do casal complementar, mas que na verdade leva bastante gente à frustração. Frustração por esperar que uma imagem idealizada se conforme com o mundo da vida – quando isso não ocorre.
Na questão do casal, parece haver uma tensão. Se por um lado existem as tentativas de construção de uma relação mais igualitária, onde homem e mulher compartilham uma relação com equilíbrio de poderes (embora não se saiba muito bem como se faz isso, as coisas vão se fazendo). Por outro lado, o erotismo e a sexualidade, curiosamente, não são muito “politicamente correto”. Porque a sexualidade do casal também passa por fantasias e jogos de dominação, submissão, também passa por jogos de infantilização que são erotizados, e passa por “castigos” e “presentes”. Todo um universo do jogo de poder e da raiva, da agressividade, que estão relacionados com a expressão da sexualidade e que não estão necessariamente combinados de uma forma conjunta com a questão do casal igualitário que possa discutir a relação.
Qual é a diferença entre o masculino e o feminino? Porque, quando falamos em casal complementar, a diferença está excluída. Quando o Movimento Feminista reivindica a igualdade, a diferença está abolida nesta fala. Não é a diferença biológica que se pergunta aqui – já tão desconstruída atualmente. De fato não é a diferença aparente. Não sei exatamente qual que é a diferença entre masculino e feminino, mas é aí que circula o desejo.
Quando começa a não aparecer alguma diferença, a sexualidade quase que morre. Tem aí alguma coisa de misterioso ainda: como que a gente conquista a igualdade preservando as diferenças?
Terceiro tempo
Existe algo que ocorre no universo feminino em que a mulher espera coisas do homem. Creio que isso que ela espera circula, transita, na expectativa pelo amor romântico. Talvez não se limite nessa ideia de completude, de complementaridade, de colocar no outro a expectativa de completá-la, mas talvez uma ideia, uma espera, de se sentir desejada. De precisar confirmar que ela é desejada.
Principalmente hoje, onde tudo é retificado, restaurado. Vivemos no mundo das plásticas, da eterna juventude, as mulheres tem que cuidar muito bem do seu corpo, da sua pele... Essas mulheres que tem filhos e o peito caiu; tem filhos e vão fazer uma lipoaspiração. É na ilusão que essas coisas vão trazer pra ela essa confirmação do desejo. Talvez faça essas coisas exatamente porque não saiba mais onde está o desejo. Então, essa circulação de pensar no desejo, malfada expectativa de ter de volta com a plástica a desejabilidade de si pelo homem. Ora, quantas histórias já ouvimos de mulheres que se plastificaram e, mesmo ficando maravilhosas, seus maridos já não as desejavam mais? Quer dizer que não passa por aí o desejo – é outra coisa.
Há também a questão de que muitos homens chegam à família muito inexperientes – neófitos – recém saídos de suas mães. É como se eles somente mudassem de casa. Sai do colo da mãe e vai para outros braços, chegando nesse novo aconchego. E as mulheres estão muito felizes em fazer isso: acolher em seus braços um homem que queira a proteção deste aconchego. Então muitas mulheres “ajudam” a criar filhos mal saídos de suas mães; e muitos homens, bem criados por suas mulheres, vão embora – estão prontos para ir embora: para os braços de outra mulher.
Quarto tempo
Nós homens somos novos com relação a se tematizar. Tematizar o homem enquanto ser da relação homem-mulher. É como se discutir essas questões, ter que lidar com isso, é constatar uma perda de poder. Porque a ideia de não precisar discutir significa estar superior a estas questões. Só que enquanto alguns homens estão se colocando como superiores a essas questões, essas questões estão se dando e as coisas estão mudando.
No inicio da década de 1980 a questão do feminismo era muito evidente e os jovens homens se sentiam acuados. O adolescente queria seguir os grandes modelos masculinos e depois na vida adulta eles não sabiam o que fazer com as moças. Não só não se sabia o que fazer com elas como não podia perguntar. Ao menos hoje se pode perguntar – continua-se não se sabendo, mas pode perguntar. A ideia de que se tem que saber automaticamente “o que fazer” talvez tenha ficado menos forte: um sinal de flexibilização.
Se pensarmos que o que se está falando é na verdade que o homem nunca havia tematizado nada, não havia se tematizado, pouca coisa mudou. É dizer, o homem nunca tinha se pensado como homem – éramos sempre aquilo que é evidente: todos sabem o que é ‘homem’, seu papel e função na família. Esse “todos sabem” é justamente a negação de se tematizar. Ora, nós éramos tão auto-suficientes que nos restava apenas reclamar um pouco desse avanço que as mulheres estavam exercitando naquela época.
A impressão é que até hoje os homens se tematizam muito pouco. As mulheres conversam muito mais sobre sua condição do que os homens. Talvez é por estar ainda delegado às mulheres conversarem sobre o universo dos filhos, como se isso não fosse ainda um universo que os homens pudessem compartilhar. Como se fosse ainda um universo feminino e os homens ficassem “livres” deste universo, do universo das relações.
Elas falam de tudo, com muita naturalidade, elas falam de envelhecimento, de filhos, da vida, da sua sexualidade - de tudo. Nós homens quando nos encontramos, falamos de política, de mulher – bom, nem se fala tanto de mulher, não... Fala-se muito de futebol.
Acho que o futebol é fundamental pra preencher o imenso vazio masculino. Se não fosse o futebol de domingo, o que preencheria esse grande vazio?
sábado, 28 de maio de 2011
Neutralidade e Relativismo
Se tudo é relativo, é relativo à que? Levi-Strauss fez certa vez um apontamento muito perspicaz: se gosto é relativo, então canibalismo é uma questão de gosto. Se há algum mérito na idéia de relativismo é o de ter rompido com o etnocentrismo europeu – e só. O problema de dizer que tudo é relativo é diluir a possibilidade de construir critérios que nos auxiliem a compreender certas questões (sejam teóricas ou práticas). Quando tudo é relativo, tudo é justificável e não há mais porque se argumentar – acabou a civilização! Sem argumentos voltamos ao tacape pra resolver divergências, algo meio hobbesiano.
E não dá pra aguentar o mau uso da referencia a Einstein sobre a relatividade de tudo. O que falam nas escolas nas aulas de física? Concordo que o nome da teoria dele em nada ajuda aos “não iniciados” a saberem do que se trata. A Teoria Geral da Relatividade trata justamente de encontrar uma base que não seja relativa à outra coisa, porque se tudo é relativo, essa “coisa” terá que ser relativa à outra e assim sucessivamente ao infinito. Einstein postulou que essa coisa que não é relativa a nada, mas ao que todas outras lhe tributam referencia, é a luz. Grosseiramente é isso.
Dá pra entender porque o argumento nietzscheano para a “morte de Deus” causou tanta revolta. Desde a filosofia de Descartes que Deus é o grande árbitro absoluto garantidor do acesso ao conhecimento da natureza pelo Homem. Deus era a “coisa” que não era relativa a nada. Com Deus “morto”, o Positivismo de Augusto Comte encontra morada no Reino dos Homens; e com ele a idéia de que conhecimento válido e verdadeiro é o científico... Claro, a ciência à La Comte. Max Weber dedica boa parte de seus trabalhos a questões de como ser neutro (p.ex. Ciência Como Vocação); notem que ele é desta época. Muita história rola a partir disto, mas não vou atordoar você leitor (ao menos neste post) com mais história. O que vale ficar dessa historieta é que se tentou convencer que ser científico é ser objetivo e para conseguir ser objetivo deve-se ser neutro.
Para acreditarmos no mito da neutralidade científica é preciso aceitar que o Homem pode olhar a natureza, o mundo, seja o que for, de fora. Afastado, intocado, sem contaminar o objeto de pesquisa e sem ser contaminado por ele. Que as pesquisas se dão sobre “dados” e fatos – como mostra a origem da palavra “dado” = “oferecido” pela natureza. Não tem nada “dado” na natureza, toda ciência constrói seus objetos e seus dados. O cientista sempre tem que escolher qual método vai usar – é ele que escolhe e não a natureza. Os métodos são construções teórico-filosoficas que sempre tem que assumir certos pressupostos para operar. Estes pressupostos condicionam os objetivos, os agentes e o funcionamento da ciência. Sofremos de uma concepção iluminista de que a verdade é alcançada com a descoberta de teorias, ocultas na natureza e postas ali por alguma divindade mitológica, bastando o ser humano descobrir quais são estas leis invariáveis da natureza para então dominá-la.
O ser humano faz parte dessa natureza que ele tenta entender; o que dirão ainda as Ciências Humanas, em que o pesquisador é o próprio objeto de pesquisa? Isso nada tem a ver com ideologia ecológica. Quer se dizer que a realidade humana é multidimensional, não existe fora da natureza, do mundo (do universo se quiserem). Ora se “a verdade” é um todo, certo e completo e cada ciência se baseia em uma única possibilidade, logo são falsas se pretenderem ser A Verdade. A ciência, como produto humano, é um poder exercido sobre as coisas e sobre os seres vivos, logo é necessário atingir uma reflexão sobre as decisões constitutivas dos diversos saberes das ciências humanas. A visão meramente objetivista, embora tente, não consegue fundar uma “ética do conhecimento”; entretanto não consegue prescindir de uma ética que lhe dê fundamento.
As condições onde se produzem os conhecimentos objetivos e racionalizados estão banhados por uma inegável atmosfera sócio-político-cultural. É dizer que não existe ciência “pura”, que a ciência é produto humano, que o cientista é atravessado pela subjetividade pessoal e social – quer goste ele ou não – a razão científica não é imutável. É histórica, social e cultural. O cientista não tem o privilégio da imunidade das injunções da mudança. Todavia, não significa por a ciência na lata do lixo – claro que não! É por isso que a atividade intelectual, que se pese científica, deve ser reflexiva e denunciar tudo o que parece se impor como “natural” ou “normal”. Humberto Maturana, em “Cognição, Ciência e Vida Cotidiana”, expressou isso sucintamente dizendo que não se foge de um posicionamento no mundo, sob pena de crer-se mero espectador do mundo; e, portanto, dotado de uma capacidade critica neutra.
Não há hoje cientista sério que acredite que a ciência dita verdades. O cientista de hoje sabe que ele não tem como provar nada, no máximo dizer em quais condições uma teoria pode ser refutada (Popper, Pierce, Lakatos, Godel). As publicações científicas são como os nossos jornais: as noticias de ontem tem menos relevo que as de hoje. Se o cientista não pode ser neutro, quem dirá nossas opiniões de botequim!

